                       Com Esta Aliana
Robin Jones Gunn
Srie Selena 6

Ttulo original: With This Ring
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2001

Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat



   Selena aguarda com ansiedade sua viagem para a Califrnia. Vai ser timo poder rever amigos to legais como Cris, Ted, Katie, Trcia e Douglas. Alm de curtir
ao mximo essa frias, ela tem um motivo a mais para estar to animada: finalmente Trcia e Douglas vo se casar!  Selena fica superenvolvida com os preparativos
para o casamento: compra de presentes, uma despedida de solteiro que quase acaba em tragdia, conversas francas sobre pureza e virtude. Com tudo isso, ainda encontra 
tempo para refletir sobre o significado do primeiro beijo, de uma vida de compromisso e pureza, e dos relacionamentos de amor. 
No dia da cerimnia, Selena percebe que todos os seus amigos esto namorando, menos ela. Mas em vez de ficar ressentida, ela conclui que na hora certa vai encontrar 
seu futuro esposo e deve guardar-se para ele. E comea novamente a pensar em Paul, o misterioso rapaz que agora mora na Esccia. 
Ser que ela est louca, por ainda pensar nele, mesmo sabendo que provavelmente nunca o ver de novo? Selena aprender a confiar em Deus ao ponto de deixar nas mos 
dele o seu futuro e o futuro de seus amigos?
       
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SEMEADORES DA PALAVRA e-books evanglicos
      
Para meu filho e minha filha,
Com muito amor e muitas oraes.

De sua me


Captulo Um
      
      Dando uma ltima olhada para sua imagem refletida no espelho, Selena Jensen enfiou no brao uma pulseira de prata e gritou:
      - Me, diga a ele que vou descer j, j.
      Pensou se talvez no devesse trocar de roupa e colocar uma cala jeans. O vestido que usava era muito chique para seu gosto. Contudo as noites de vero em 
Portland eram muito quentes, e a idia de vestir jeans a deixou meio incomodada. O melhor seria mesmo um vestido. Entretanto o melhor talvez no fosse esse escuro 
e de corte reto. Que tal uma saia de tecido leve?
      Selena se ps a procurar no meio do monte de roupas que se achava em cima de sua cama.
      Cad aquela saia azul? indagou a si mesma. Eu a vi agorinha h pouco, quando procurava o outro p de sapato. Ah, ! Est debaixo da cama.
      Nas primeiras semanas, depois que sua irm mais velha se mudara para outra cidade, Selena conseguira manter o quarto bem arrumado. Contudo,  medida que o 
tempo fora passando e ela ficando mais ocupada, a baguna fora s aumentando e o aposento ficando cheio de objetos espalhados. Por diversas vezes, a garota se dispusera 
a dar uma arrumao nele. Contudo agora, como deixara tudo ir se acumulando, com uma hora apenas no conseguiria ajeit-lo. Aquilo era servio para um dia inteiro. 
Ento ficava s adiando a tarefa.
      A garota abaixou-se e ergueu a beirada da colcha. A primeira coisa que viu foi um pedao de biscoito gua e sal. Alm dele, havia ali dois chumaos de algodo, 
um par de meias, uma revista, uma "xuxinha" (que mais parecia um m de poeira), e seu trabalho de Histria sobre a rainha Maria Antonieta, no qual tirara a nota 
mxima. A saia azul no estava ali.
      - Selena! gritou a me ali pertinho dela. O que est fazendo a?
      A garota se ergueu prontamente, abandonando a posio deselegante, debaixo da cama, e olhou para a me. Seu cabelo cheio e encaracolado lhe cara no rosto.
      - No escutei a senhora entrando, me, disse ela.
      Logo atrs da me estava V May. As duas sorriam. Sharon Jensen era uma mulher magra, de uns quarenta e poucos anos. Parecia uma irm mais velha da filha, 
e no me dela; alis, de seis filhos.
      -  falta de educao deixar o homem esperando, queridinha, comentou V May. Voc j est pronta?
      - Acho que sim, respondeu Selena, ajeitando o vestido e passando a mo no cabelo. Estava pensando em trocar de roupa e colocar uma saia longa.
      - Assim est bom, disse a me. Ele vai lev-la a um restaurante chique. Ser melhor ir com uma roupa mais elegante.
      - , eu sei, mas estou meio sem jeito com esse negcio todo, confessou a garota. No sei por que ele me convidou para ir jantar fora.
      - No faz a menor idia? indagou a me.
      - No, mas a senhora deve saber, n?
      - Talvez, replicou a me com um leve sorriso.
      - 'T bom, estou pronta. Eu s queria que no fizessem tanto rebulio em torno desse jantar.
      - Voc est se tornando uma jovem e tanto, queridinha, disse V May. Ele vai ach-la linda.
      Impulsivamente, a garota deu um beijinho rpido no rosto da av e saiu em direo  escada que dava para o andar de baixo.
      - Acho que as duas esto curtindo esse evento importante de minha vida mais do que eu, comentou.
      Sentiu o rosto avermelhar-se um pouco quando viu aquele com quem iria sair parado junto  porta de entrada. Estava vestido com uma cala social e um palet 
esportivo. De onde se encontrava, sentia o cheiro da sua loo aps barba, com aroma de pinho. Ele se virou para olh-la e a garota percebeu que tinha nas mos uma 
caixinha de plstico atada com uma fita lils.
      No acredito que ele at comprou flores pra mim! Isso j est passando dos limites. E se eu disser que desisti, que no quero mais sair? 
      - Humm... voc est linda! exclamou ele.
      Selena sentiu-se mais tranqila ao ouvir aquela voz grave e fitar o rosto to conhecido. Estava recm-barbeado, e o cabelo castanho, que j comeava a rarear, 
se achava bem penteado. Ele sorriu, e nos cantos dos olhos logo apareceram ruguinhas, como sempre acontecia quando se esforava para conter a emoo e no chorar.
      - Pai, disse Selena em voz suave, sei que isso  pra ser um grande acontecimento, um pai sair com a filha. Mas me sinto to sem jeito com esse negcio de ter 
de me aprontar toda para a ofifica?
      - Isso aqui  pra voc, replicou ele, sem dar a menor ateno  tentativa dela de mudar os planos. Mandei fazer um buqu pequeno porque no sabia se voc ia 
querer preg-lo na roupa ou no.*
      ___________________
      * Nos Estados Unidos, quando um homem d um buquezinho a um mulher, normalmente ela o prega na roupa. (N da T.)
      
      A garota olhou para a caixinha com as flores, delicados botes de rosa. Nela estava colado um adesivo dourado com o nome da floricultura - ZuZu's Petals. Ficava 
na mesma rua da confeitaria Mother Bear, onde Selena trabalhava. Certa vez, fora l fazer uma entrevista para ver se arranjava um emprego na loja. No o conseguira, 
mas acabara descobrindo que a proprietria conhecia sua av. Agora a mulher ficara conhecendo tambm o pai dela. Ser que ele havia explicado para quem estava comprando 
aquele buqu?
      - Talvez fosse melhor eu guardar essas flores na geladeira, disse a garota meio ressabiada, ao pegar a caixinha das mos dele. So to lindas! Tenho medo de 
estrag-las!
      O pai fez uma expresso de decepcionado. Em seguida, disse:
      - Bom, faa o que voc quiser. Elas so para voc. 
      Pregado  caixinha, havia um cartozinho. Selena abriu-o com a ponta do dedo e leu o que o pai escrevera:
      "Voc sempre ser minha filha querida! E sempre a amarei! Papai."
      Selena mordeu de leve o lbio inferior, sentindo o gosto do brilho labial que passara quinze minutos antes. No poderia rejeitar aquele buqu. Embora no estivesse 
entendendo bem o significado daquele evento - a filha sair com o pai - o certo  que no poderia deixar as flores para trs.
      -  muito lindo! exclamou, sentindo um ligeiro n na garganta. Obrigada, pai. Vou levar.
      - timo! Ento, j est prontinha?
      A me de Selena, que estivera parada no alto da escada, interrompeu-os.
      - Esperem um pouco, vocs dois. Quero bater uma foto!
      Selena deu um sorriso meio forado, vendo a me descer para junto deles.
      ! Isso est ficando complicado! pensou. Espero que no encontremos nenhum conhecido!
      - Vamos l! disse a me, levando a cmera ao rosto e fechabdo um dos olhos. Coloquem o brao um no outro. Assim! Vamos l, filha, v se d um sorriso! Isso! 
Fique assim!
      Ouviram o clique da mquina e imediatamente a me disse:
      - Esperem a. Agora quero um close!
      Ela arrumou o cabelo louro e curto atrs da orelha e novamente deu orientaes sobre o posicionamento deles. Ouviu-se outro clique da cmera, e em seguida 
ela disse:
      - 'T bom! Tchau pra vocs! Divirtam-se! Harold, lembre-se de que minha filha tem de estar de volta na hora marcada, hein!
      - Pois no, senhora! respondeu ele, abrindo a porta para a filha.
      Eles se dirigiram para o novo carro de Wesley, um veculo de estilo esportivo. Na verdade, era um carro velho, de 1969. Para o rapaz, porm, era novo, pois 
o comprara um ms atrs. Wesley e o pai haviam passado muitas horas consertando-o. Afinal, agora, ele estava "rodando macio", como diziam eles. Selena achou bom 
que o irmo estivesse trabalhando naquela noite e no se achasse ali para curtir com a cara dela.
      - Achei que voc ia gostar mais de ir neste carro do que na nossa van, explicou o pai, girando a chave na ignio. Ah! Est roncando bonitinho.
      Ele foi saindo da garagem e desceu pela rua, silenciosa quela hora. Esse setor da cidade era famoso pela presena de manses em estilo vitoriano, todas restauradas. 
A casa em que moravam fora construda pelo bisav de Selena. Muitas das residncias daquela rua tranqila, com sua fileira de rvores, ainda eram habitadas pelos 
proprietrios originais ou por descendentes deles.
      - Aonde  que vamos? quis saber a garota.
      - Ah!  surpresa! respondeu o pai.
      Ele foi rodando em direo  Ponte Burnside, onde passariam sobre o rio Willamette, rumo ao centro da cidade. Selena deu uma espiada para o buqu que deixara 
sobre o colo e notou que o vestido estava meio curto. Tentou pux-lo um pouco. Engraado, na hora em que o comprara e tambm no momento em que o vestira no o achara 
curto. Agora, porm, sentada ao lado do pai, sentia-se constrangida. Arrependeu-se de no t-lo trocado pela saia longa.
      - Como  que est indo o trabalho l na Highland House? indagou ele.
      - Muito bem. J contei sobre os colares de macarro que fiz com a meninada?
      - No. Mas outro dia vi na cozinha uma poro de tigelas cheias de macarro pintado de vrias cores. O que vocs fizeram com eles?
      - Pulseiras e colarzinhos. Nunca imaginei que as crianas daquele abrigo fossem gostar tanto de fazer essas coisas. Levei todo aquele macarro pra l e deixei 
que eles mesmos os enfiassem nos fios de nilon. Eles ficaram doidos de alegria. E alguns at que fizeram o servio direitinho. Falei com as meninas maiores que 
na semana que vem vou levar miangas de verdade.
      - Eu e sua me estamos muito felizes por voc estar dando assistncia l nestas frias, e ao mesmo tempo mantendo seu servio na Mother Bear. Est trabalhando 
bem, filha!
      - . Estas minhas frias esto sendo timas, comentou Selena.
      Com movimentos lentos, ps-se a tirar as flores de dentro do invlucro de plstico. Levou ao rosto os botes para aspirar-lhes o perfume. Eles tremularam ligeiramente. 
A fragrncia era bem suave. Nas ptalas e folhinhas, ainda havia algumas gotinhas de gua, que lhe ficaram na ponta do nariz.
      - E ainda tem muita atividade pela frente, disse ela, limpando o rosto com as costas da mo. Estou ansiosa para chegar a semana que vem, para ir  Califrnia.
      Talvez eu possa entrar no restaurante com as flores na mo sem que ningum veja, pensou. Vou deix-las ao lado do prato. Assim o papai vai ficar satisfeito.
      O carro parou e Selena olhou para fora.
      Oh, no! exclamou interiormente.
      - Chegamos! disse o pai. 
      Mas logo aqui? Oh, papai! Com tanto restaurante em Portland, o senhor teve de escolher justamente este?

Captulo Dois
      
      - Ouvi voc e o Wesley falando tanto deste lugar que achei que seria interessante vir conferir pessoalmente, explicou o Sr. Jensen, abrindo porta do carro 
para a filha.
      A garota esforou-se para dar um sorriso e pegou o buqu, segurando-o de leve. Estava tentando sair daquele carro minsculo sem que a barra do vestido deslizasse 
perna acima, e sem que o cabelo lhe casse todo no rosto. No era nada fcil.
      - Me d a mo, ofereceu o pai num tom galante.
      - Precisa no, pai. Aqui vai dar, replicou ela.
      Com um impulso s, ela se ergueu, jogando o corpo para fora do veculo, procurando ser o mais graciosa possvel. Felizmente, no havia mais ningum no estacionamento.
      O Sr. Jensen ofereceu o brao  filha para se encaminharem para a entrada. Era um restaurante italiano, e o proprietrio dele era o tio de Amy, uma amiga de 
Selena. Amy era recepcionista na casa e havia arranjado emprego ali para vrios conhecidos. Um deles era Wesley, que trabalhava como garom. E nesta noite ele estava 
de servio. Naquele momento, Selena pensou que era bem possvel que seu pai tivesse manobrado tudo de modo que ficassem numa das mesas do filho.
      Amy arranjara servio ali tambm para o Ronny, um amigo de Selena. E ainda para o Tre, um colega de escola que tocava no conjunto de Ronny.
      Selena ps a mo de leve no brao do pai quando caminhavam para a porta. O que ser que as pessoas pensariam ao ver uma garota de dezesseis anos, toda arrumada 
- e ainda por cima com um buqu - entrar num restaurante elegante com um senho de meia-idade, ligeiramente calvo, que tinha um amplo sorriso no rosto? Sentia-se 
to constrangida!
      O pai abriu a porta, o que deu a ela a oportunidade de soltar o brao dele e afastar-se um pouco. No saguo, havia uns doze clientes, sentados em bancos de 
estilo antigo, aguardando vaga.
      A primeira pessoa que Selena avistou foi Amy. Estava com um vestid azul-marinho e, sobre ele, um coletinho de renda. Ela o havia comprado dois dias antes, 
quando as duas foram fazer compras numa butique muito chique. O colete combinara muito bem com o vestido. O cabelo comprido e escuro da colega estava amarrado para 
um lado, num rabo-de-cavalo que lhe caa num longo cacho junto ao rosto. Pelo brilho que viu nos olhos da amiga, Selena compreendeu que ela sabia daquele jantar 
especial de pai e filha, e j os estava esperando.
      - Boa noite! cumprimentou Amy formalmente, fazendo uma marca na folha de reservas. Temos uma mesa reservada para o Sr. Jensen, para duas pessoas. Venham por 
aqui, por favor.
      Selena foi caminhando atrs da amiga e cochichou-lhe:
      - Pronto, Amy, chega de fingimento. J estou morrendo de vergonha e voc ainda entra nessa encenao.
      - Que encenao? sussurrou a outra enquanto caminhavam por entre as mesas do restaurante, que alis estava superlotado. Fao isso todas as noites.
      Selena teve vontade de dar-lhe um belisco de brincadeira. Contudo, logo a seguir, Amy se virou para trs e, com olhos bem expressivos, cochichou-lhe:
      - Olha, o Nathan  aquele ali, perto da mesa 17. Ele no  um "gato"?
      - Mesa 17? Onde que ? No estou vendo nenhum "gato" por aqui!
      - Ali, murmurou Amy em voz bem baixa. Perto da janela. Hoje ele me perguntou se vou trabalhar na tera-feira.
      - Ah! exclamou Selena.
      Nas duas ltimas semanas, Amy s falara nesse rapaz, que viera trabalhar no restaurante. Fora na mesma ocasio em que a garota desistira de conquistar o irmo 
de Selena. Wesley sempre era atencioso com ela e a tratava bem, mas ela queria que acontecesse algo entre eles. Afinal, percebendo que isso no sucederia, e com 
o fato de Nathan ter ido trabalhar no restaurante, ela dirigira seu interesse para ele.
      Selena olhou de novo para o "gato" de sua amiga. Aparentemente uns vinte anos. Tinha cabelo louro bem claro, todo penteado para trs. Os olhos eram prfundos, 
encimados por sobrancelhas escuras. Tinha um ar muito srio que no agradou  Selena. Compreendia, porm, que a amiga se achava deslumbrada com ele.
      Amy parou junto a um compartimento ao fundo do salo e fez sinal a Selena para que entrasse.
      - Voc entendeu? indagou para a amiga cochichando. Tera-feira  folga dele. Acho que vai me convidar pra sair. Entregou um cardpio para Selena e outro para 
o pai dela. A seguir pigarreou e, reassumindo a postura de recepcionista, disse:
      - Quem vai atender a mesa de vocs  o Wesley. Ele vir pegar os pedidos daqui a pouco. Bom jantar!
      Nesse ponto, deu uma olhada significativa para Selena, erguendo uma das sombrancelhas, como quem diz: "Fique de olho em mim". Em seguida, saiu para retornar 
ao seu posto,  entrada do restaurante. Em vez de ir direto para l, porm, deu a volta pela frente do salo, aproximando-se da mesa 17, onde se achava Nathan, anotando 
o pedido. Quando a garota passou, o rapaz virou-se ligeiramente para olh-la. Selena compreendeu, ento, que talvez Amy tivesse razo. Conseguira atrair o interesse 
do colega. No havia dvida de que ele iria convid-la para sarem juntos.
      Selena se sentiu meio incomodada. Talvez essa desinquietao fosse causada pelo fato de ver a amiga prestes a comear um namoro, enquanto ela estava ali jantando 
apenas com "seu pai", meio sem jeito com aquele buqu. Colocou-o perto do garfo e, sem seguida, pegou o guardanapo, abriu-o e acomodou-o no colo. Sentia que precisava 
mostrar-se agradecida ao pai por tudo aquilo. Percebia que ele se emprenhara muito para proporcionar-lhe uma noite agradvel.
      - Oi, gente! exclamou Wesley, surgindo ao lado da mesa.
      Era muito parecido com o pai em tudo, inclusive no fato de ser magro. Quando sorria, tambm formava ruguinas no canto dos olhos. A nica diferena estava no 
cabelo castanho e ondulado que, no filho, ainda no havia comeado a cair.
      O rapaz pegou o bloquinho de pedidos e indagou:
      - Querem saber quais so os pratos especiais de hoje?
      O Sr. Jensen fechou o cardpio e disse:
      - ; vamos l. Voc, como grande conhecedor, o que nos recomenda?
      Selena ficou aliviada ao ver que o irmo no gozara dela. A sansao que tinha era de que todos eles no passavam de um bando de crianas "brincando" de "gente 
grande".
      - Nosso ravili hoje est soberbo, principiou ele. Alis, foi o que comi no meu horrio de almoo. Alm disso, vocs devem pedir uma entrada de salada de po 
romano, que  especialidade da casa. Ele vem recheado com pedaos de tomate e queijo derretido em cima.
      Humm, fez o Sr. Jensen, para mim est bom. O que voc vai querer, Selena?
      - Tambm gostei, respondeu a garota. Mas quero pouca salada, e gua mineral.
      - Quero gua tambm, disse o pai, e caf.
      Wesley fez as anotaes no bloco. A seguir, pegou os cardpios e fez um aceno de cabea para o pai e a irm, como se eles fossem clientes comuns, num dia qualquer.
      - Muito bem. Vou trazer logo a gua e o caf.
      Assim que ele se afastou, o Ronny, que estava removendo os pratos da mesa prxima, chegou perto deles. Estava com um avental branco sobre o uniforme e tinha 
os braos cheios de vasilhas. Selena nunca o vira com aquela roupa - camisa scias e gravata borboleta. Em Wesley, a roupa de garom caa bem. Ronny, porm, com 
seu sorriso tpico, entortando a boca, e o cabelo louro e liso partido ao meio, parecia estar vestido par uma festa  fantasia.
      - Oi, Selena! Oi, Seu Harold! Ouviram falar do acidente do Drake? indagou o rapaz.
      - No. O que houve? Como  que ele est?
      - Est bem. Ele estava no caminho de entregas e bateu num poste. Estourou o pneu dianteiro. Foi l em Laurelhurst. Eu estava aparando um gramado por ali e 
ouvi um barulho de batida. Corri para o ponto de onde vinha o barulho e vi que era o Drake. O motor pegou fogo. Drake estava muito chateado. Disse que foi desviar 
de um gato e bateu.
      Selena sabia o que o pai pensava sobre gatos e ficou desejando que ele no fizesse nenhum comentrio. Provavelmente, diria que teria sido melhor que Drake 
tivesse acabado com mais um gato em vez de ter batido no poste. Felizmente, o Sr. Jensen limitou-se a perguntar:
      - Qual  o caminho dele?
      -  um caminho ba, da Joy, explicou Ronny, remexendo-se um pouco e fazendo um rudo leve com a loua.
      -  a empresa do pai dele, interveio Selena.
      - Fraldas descartveis Joy? quis saber o Sr. Jensen.
      A garota fez que sim, sabendo exatamente o que ele estaria pensando naquele momento. Quem visse Drake, um rapaz moreno, alto, porte atltico, jamais imaginaria 
que ele trabalhasse com um caminho fazendo entrega de fraldas.
      Um dos garons aproximou-se e falou com Ronny.
      - Mesa 7. E depressa, t?!
      - , gente, tenho de andar, falou o colega de Selena.
      Virou-se para sair, mas antes de ir embora deu uma olhada para a garota por cima do ombro e exclamou:
      - Voc est muito bonita, Selena!
      - Obrigada! murmurou ela, sentindo o rosto avermelhar-se.
      - Seus amigos so timos, disse o pai depois que Ronny se foi.
      - Sei disso, replicou Selena.
      Pensou em como era bom ver que Ronny no estava se sentindo constrangido com ela. Nos ltimos meses, os dois tinham se visto quase todos os dias. No princpio, 
haviam comeado a agir como namorados. Contudo, depois de um passeio em que foram acampar, e em que havia acontecido vrios fatos inusitados, eles tinham combinado 
que seriam "apenas amigos". A partir da, o relacionamento deles ficara mais natural.
      Houve uma certa poca em que ela pensara em namorar o Drake. Eles at tinham ido ao cinema juntos, s os dois. Contudo, isso comeara a atrapalhar todos os 
seus outros relacionamentos. Ento ela conclura que ainda no estava preparada para namorar firme. Os outros amigos eram por demais importantes para ela. Drake 
aceitou suas explicaes, mas depois disso no a procurou mais. Embora no primeiro encontro o rapaz houvesse dito que estava interessado nela, mostrou-se frio quando 
viu que o relacionamento deles no iria continuar do jeito que ele queria.
      Wesley trouxe o caf, a gua e uma vasilha com o po romono, bem quentinho. A essa altura, Selena j se sentia um pouco mais  vontade ali naquele ambiente 
com o pai. O cheiro de alho que vinha do po aguou-lhe o apetite.
      - Voc j est com tudo arrumado para a semana que vem, filha? indagou o pai. Que dia que voc vai mesmo?
      - Na quarta-feira  tarde, explicou ela. Tnia vai me pegar no aeroporto.
      - Quem  mesmo que vai casar?
      - Douglas e Trcia.
      - Ah, . Ele foi o chefe do seu grupo, naquela viagem  Inglaterra, no foi?
      Selena fez que sim.
      - E Douglas  amigo do Jeremy, continuou ela.
      Ela no tinha muita certeza se o pai ainda se lembrava de que Douglas era conhecido do namorado de Tnia.
      - Ele e a Tnia tambm vo ao casamento.
      - , disse o pai, tomando um gole de caf. Estou lembrado de que eles disseram mesmo que iam. Parece que vai ser muito bom para voc.
      - J estou com tudo preparado, disse Selena. Sabe que na semana passada trabalhei quarenta e duas horas no Mother Bear? Todo mundo resolveu tirar frias ao 
mesmo tempo. E foi timo a D. Amlia ter consentido que eu tirasse esses dias de folga agora. E enquanto eu estiver fora, ela vai treinar uma outra funcionria, 
j que, quando as aulas comearem, vou voltar a trabalhar s doze horas por semana.
      - Prontinho! Aqui est! disse Wesley, chegando e colocando em frente de cada um as saladas, servidas em tigelas de porcelana italiana. Algum quer queijo ralado 
na salada?
      - No, obrigado!
      - Nem eu!
      - Ento, bom apetite! falou o rapaz, afastando-se com o ralador na mo.
      - Vamos orar? perguntou o Sr. Jensen.
      Ele sempre orava antes das refeies, mesmo quando comiam num restaurante. Ento, para Selena, aquilo era muito natural. Ela inclinou a cabea e fechou os 
olhos. Ficou ouvindo a orao do pai, que deu graas a Deus pelo alimento e pela linda filha. Assim que ele disse "amm", a garota ergueu os olhos e exclamou:
      - Obrigada, pai!
      Ele fitou-a e dirigiu-lhe uma piscadela. Em seguida, puseram-se a comer. Selena mal tinha engolido a primeira garfada, quando o pai disse:
      - Voc deve estar se perguntando por que eu a convidei para jantar fora comigo, no ?
      A garota sentiu o corao bater com mais fora, embora  soubesse bem por qu. Largou o garfo e ficou esperando que ele lhe explicasse.
      

Captulo Trs
      
      O Sr. Jensen pigarreou e prosseguiu:
      - Sabe o que ? Desde que voc contou para mim e para sua me que ia escrever suas metas para o namoro, ns comeamos a conversar sobre o assunto e resolvemos 
fazer algo para ajud-la a cumprir seu propsito.
      Selena levou  boca outra garfada de salada e esperou que ele continuasse.
      - E  isso que quero fazer hoje, disse o pai, pigarreando de novo.
      A garota teve a impresso de que ele tambm estava um pouco nervoso.
      - Eu queria arranjar um jeito de demonstrar-lhe o quanto voc  importante, no apenas para mim e sua me, mas para Deus tambm.
      - Obrigada, pai, replicou ela. Muito obrigada mesmo. Mas o senhor no precisava fazer tudo isso para que eu me sentisse amada.
      Durante alguns instantes, o Sr. Jensen concentrou-se em comer a salada. Parecia estar pensando em algo. Ou ento procurava xontrolar-se para no deixar transparecer 
o nervosismo. Aquela situao era realmente meio inusitada. Selena sabia que seus pais a amavam e que Deus tambm a amava. Contudo achava um pouco exagerada toda 
aquela cerimnia de se aprontar e ir jantar fora.
      - Eu queria saber mais ou menos o que voc escreveu. Isto , qual  o seu pensamento sobre o namoro e quais as suas metas, disse o pai. O que h na sua lista?
      - No sei se vou conseguir me lembrar de tudo. Quero dizer, sei o que escrevi, mas no me recordo das palavras exatas. Fiz duas listas. Numa, citei os critrios 
que vou empregar para escolher o rapaz que eu gostaria de namorar. Na outra, expus ... vamos dizer, o meu "credo" com relao ao namoro.
      - O seu credo, repetiu o pai. Muito interessante! Queria que me contasse o que ps nessas duas listas.
      - Bom, principiou Selena, largando o garfo e afastando para um lado o prato de salada j quase vazio. Na lista do namorado, coloquei apenas trs requisitos.
      - Quais?
      - Primeiro, ele tem de ser crente. Mas no basta ser um crente qualquer. Tem de ser um bom crente, um cara que est crescendo espiritualmente. Um amigo de 
Deus.
      - Amigo de Deus?
      Selena fez que sim.
      - Esse  o nome do grupo do Douglas e do Jeremy.
      - Gostei! exclamou o pai.
      - Tambm gosto, concordou Selena. O outro requisito, ou seja l o que for,  que esse rapaz tenha desejo de servir a Deus. Acho que escrevi mais ou menos que 
quero que ele seja consagrado ao Senhor e queira servir a Deus no seu trabalho.
      - Quer dizer que s vai namorar um futuro pastor ou missionrio?
      - No! No  isso, explicou Selena. Ele no precisa ser pastor para servir a Deus em sua profisso. O Douglas, por exemplo,  assessor de um consultor financeiro. 
Provavelmente, continuar trabalhando nesse ramo pelo resto da vida, pois ele tem vocao para isso. Mas a Cris me disse que ele e a Trcia esto planejando viver 
s com a metade de sua renda e dar o resto para a obra missionria.
      -  mesmo? indagou o pai, erguendo as sobrancelhas.
      - No sei se vo conseguir ou no, prosseguiu Selena. Mas acho muito legal o Douglas sempre colocar Deus no centro de tudo em sua vida e, mesmo com o fato 
de estar prestes a se casar, continuar fiel a esse princpio.
      - Que atitude bonita! comentou o pai.
      Nesse momento, Wesley chegou com os pratos de ravili quentinho e colocou-os na mesa, um  frente do pai e outro, de Selena.
      - Vocs vo querer queijo ralado?
      - No, obrigada, disse a garota.
      - Ah, eu quero um pouquinho, respondeu o pai.
      Wesley girou a manivela do sofisticado ralador mecnico, deixando cair sobre o prato os flocos branquinhos.
      - A est bom, falou o Sr. Jensen.
      - Vou buscar mais caf, anunciou o rapaz.
      Ele deu uma olhada para a irm, mirando a mo direita dela. Fitou o pai rapidamente e depois saiu.
      - Continua, pediu o pai de Selena. Para voc namorar um rapaz, ele tem de ser um "amigo de Deus" e ter desejo de servir a Deus na sua carreira profissional. 
O que mais?
      A garota se sentiu um pouco constrangida de contar ao pai qual era o terceiro requisito. Enfiou o garfo no ravili macio e disse:
      - Bom, escrevi que quero estar gostando muito dele e ele de mim. E gostaria que fosse algum que tivesse feito o propsito de se guardar fisicamente para o 
futuro cnjuge.
      - , parece que voc estabeleceu normas bem srias e rgidas.
      Selena ficou espantada com o comentrio dele. Levou  boca outra garfada da deliciosa massa e, em seguida, perguntou:
      - O senhor acha que meus alvos para o namoro esto muito elevados e difceis?
      - No, respondeu o pai. Esto timos! D para perceber que voc pensou muito no assunto. E a outra lista, o seu credo?  um resumo daquilo que voc pensa?
      A garota fez que sim.
      - De onde tirou essa idia? quis saber o pai.
      - O senhor vai rir de mim.
      - Talvez no. Experimente.
      - Vi isso uns meses atrs, numa loja de msica do shopping, onde fui com o Ronny. Tinha um cartaz na parede, com o ttulo "O Credo do Roqueiro". Nele havia 
uma lista de dez pontos pra quem gosta de rock. O negcio era meio cmico, tipo "Se a msica estiver muito alta, voc j  velho demais".
      O pai sorriu.
      - Bom, continuou Selena, meu credo  o que eu penso com relao  pureza.
      Ela colocou outra garfada na boca e mastigou devagar. No momento em que escrevera o "credo", ela tivera uma atitude muito espiritual. Agora, porm, conversando 
com o pai a respeito da questo, sentia-se meio ridcula, alm de bastante constrangida. Sabia que no deveria ter tal reao, mas estava tendo.
      - E o que foi que voc escreveu no seu credo?
      - Escrevi apenas que meu corpo  um presente, e que  Deus, no eu, que vai decidir para quem vou entreg-lo. Disse tambm que os melhores presentes so aqueles 
que esto bem embrulhadinhos. Um presente que j foi aberto e depois embrulhado de novo no serve. O papel fica amarrotado, a fita toda amassada, e o durex no prega 
direito. Entendeu o quero dizer?
      O pai sorria levemente, exibindo suas ruguinhas em volta dos olhos. Ele fez um aceno de cabea, indicando  filha que continuasse.
      - Basicamente  isso, explicou a garota. Creio que o plano de Deus pra mim  que eu seja como um presente bem embrulhado. Assim, quando me casar, posso me 
entregar totalmente ao meu marido, pela primeira vez. E ele vai saber que sou um presente muito especial, s pra ele.
      Pronto, falei tudo, pensou Selena. E nem foi to difcil assim. Por que ser que fico to sem jeito de conversar sobre esse assunto?
      A garota percebeu que no canto dos olhos do pai surgira uma lgrima. Ele abaixou a cabea e ficou remexendo a comida no prato. Afinal ergueu o rosto para ela 
e disse:
      - Isso  maravilhoso, filha! Se eu quisesse lhe dizer tudo isso, talvez no tivesse dito de forma to perfeita. E voc  exatamente o que acabou de falar: 
um presente lindo e muito especial. Estou muito feliz com voc.
      Nesse instante, Amy aproximou-se da mesa deles e abaixou-se para conversar com Selena, quebrando a beleza do momento.
      - Selena, voc nem adivinha! disse ela quase sem flego, os olhos escuros brilhando de emoo. Ele me convidou pra sair, na tera-feira, exatamente como imaginei. 
Ns vamos ter da sair pra fazer umas compras neste final de semana, Selena! Tenho de comprar uma roupa nova.
      - O.k., replicou Selena.
      Era difcil deixar a atmosfera sria da conversa que estava tendo com o pai e "entrar" no mundo dos sonhos romnticos da amiga.
      - Voc no ficou empolgada? indagou Amy.
      - Fiquei. Claro que fiquei. Isso  maravilhoso! disse Selena
      Ela at gostaria de participar da felicidade da colega, mas Nathan no lhe parecia um bom rapaz para Amy.
      - Estou to empolgada! exclamou a outra, dando um leve aperto no brao da garota.
      Em seguida, saiu apressadamente, voltando ao posto de recepcionista.
      - Conversa de amigas? quis saber o pai.
      - , pai, desculpe!
      - No tem problema. J estou querendo a sobremesa, e voc?
      - Tambm.
      Instantes depois, Wesley veio  mesa deles, e por recomendao do rapaz pediram uma musse de chocolate. A garota pediu ainda ch de ervas e ficou a observar 
Nathan com o canto dos olhos. Da a pouco, Ronny se aproximava.
      - Posso tirar os pratos? indagou ele, j pegando o de Selena e a vasilha do po. Ah, vocs pediram o po romano, hein? Ele  muito bom, n?
      - Muito bom, concordou Selena. E o ravili tambm estava timo.
      - , hoje parece que ele est excelente. Vou jantar daqui a dez minutos, e acho que vou pedir isso tambm. Tchau! Depois a gente se v!
      A mesa estava vazia, e o Sr. Jensen limpou algumas migalhas que haviam ficado sobre a toalha. Depois, enfiou a mo no bolso do palet e retirou de l uma folha 
de papel.
      - Escrevi umas palavras para lhe dizer, principiou ele, mas acho que no preciso dizer tudo, j que assumiu uma posio firme com relao  pureza. Uns dias 
atrs fiz um seminrio s para homens, no sei se voc se lembra. Bom, eles recomendaram a ns, pais, que orientssemos nossos filhos no sentido de se manterem puros.
      Selena ainda se recordava de como o pai chegara em casa todo eufrico, aps aquela reunio em que os homens haviam passado o dia todo na igreja. O Ronny dissera 
o mesmo com relao ao pai dele. Agora estava entendendo esse jantar no restaurante e a conversa franca. Era a tarefa que os preletores haviam dado aos pais. Ou 
pelo menos eles tinham aconselhado os homens a fazerem isso, isto , a conversar com os filhos sobre pureza sexual. Ela esperava que o pai no viesse com uma palestra 
sobre a importncia de no praticarem o sexo na adolescncia. O professor de Cincias fizera uma na escola, meses atrs. E ela no estava a fim de ouvir uma lista 
de doenas sexualmente transmissveis bem na hora da sobremesa.
      - O primeiro item da minha lista, comeou o pai,  dizer-lhe que voc pode ter certeza de que ns confiamos em voc e nas decises que tomar com respeito aos 
seus relacionamentos. Mas toda vez que voc tiver alguma dvida, alguma pergunta, pode vir falar comigo ou com sua me, est bem? Sou seu pai, e voc pode confiar 
em mim para conversar sobre qualquer assunto mesmo que se sinta envergonhada.
      - Est bem, replicou Selena.
      - Estou falando srio mesmo, filha. Sempre que quiser pode conversar comigo ou com sua me.
      - Sei disso, falou ela.
      - Outro fato que quero lhe falar  que a vontade de Deus  sempre a melhor para ns. Alis,  o nico caminho que temos a seguir. E a Bblia diz que Deus criou 
o sexo para ser praticado por um homem e uma mulher que assumiram o compromisso do casamento.
      Selena voltou a sentir-se um pouco constrangida. Queria que o pai falasse mais baixo. No desejava que os outros clientes ali por perto ouvissem o que estavam 
conversando.
      - Tem um versculo que quero ler para voc, continuou ele, desdobrando o papel.
      Selena viu as frases que ele escrevera, com letras bem pequenas e organizadas em forma de esboo. Esse era o jeito como ele fazia suas anotaes. At a lista 
de compras da casa ele fazia enfileiradas, como um esboo. Escrevia tudo com letras maisculas e conseguia coloc-las em linha reta, mesmo que o papel no fosse 
pautado. Dava para perceber que ele passara um bom tempo elaborando aquelas notas.
      - E, 1 Corntios 6.19, diz o seguinte: "Acaso, no sabeis que o vosso corpo  santurio do Esprito Santo, que est em vs, o qual tendes da parte de Deus, 
e que no sois de vs mesmos?"
      O Sr. Jensen ergueu os olhos do papel e continuou:
      -  aquilo mesmo que voc estava dizendo. Seu corpo  um presente. E  Deus quem vai decidir para quem ser esse presente.
      Wesley chegou com o jarrinho de ch e a deliciosa sobremesa.
      - Musse de chocolate para dois, disse ele, e um ch de amndoa de cereja. E vou trazer mais caf.
      Em seguida, saiu com a mesma rapidez com que surgira.
      - Vou ler o versculo 20 tambm, disse o pai. "Porque fostes comprados por preo. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo."
      Srlena colocou o saquinho de ch na gua quente, lembrando a si mesma que no o queria muito forte.
      - Acho que voc j pensa assim, prosseguiu o pai.
      - Penso mesmo, respondeu Selena.
      - Estou muito feliz de ver que voc j estabeleceu suas prprias normas e escreveu o seu credo. Por experincia prpria, sei que casar virgem  o melhor que 
pode acontecer a um casal.
      Selena recordou-se de que ouvira a me dizer que tanto ela como o pai eram virgens quando se casaram. Contudo, agora, ouvindo isso do pai, a questo lhe parecia 
diferente. Dava-lhe uma sensao de segurana. Tinha esperana de que, em alguma parte do mundo, ainda houvesse rapazes muito legais se guardando fisicamente para 
a futura esposa.
      

Captulo Quatro
      
      Selena enfiou a colherinha na tentadora sobremesa e levou-a  boca, deixando-a derreter na lngua.
      - Hummm, que delcia! exclamou.
      Seu pai dobrou a folha de papel e guardou-a volta no bolso. A garota pegou outra colherada do doce. Nesse momento, viu o pai tirando do bolso de dentro do 
palet uma caixinha preta.
      - Isto  para voc, disse ele, colocando-a  frente da filha. Eu e sua me resolvemos lhe dar esse presente. Com ele, estamos lhe dando todo o nosso apoio 
e querendo reforar sua deciso de permanecer pura at o dia do casamento e se guardar para o seu futuro marido.
      Selena engoliu rapidamente o doce e olhou-o com ar de espanto.
      - O que  isso?
      - Abra e veja.
      Ela ergueu a tampa. A caixinha tinha um forro aveludado, e bem no meio dela achava-se uma aliancinha de ouro.
      Ouro?! Eu s uso jias de prata. Por que me deram um anel de ouro?
      - Olhe dentro, falou o pai.
      No rosto dele havia uma expresso de expectativa. A garota no teve coragem de dizer que no usava nada de ouro. Na face interior da aliana, estava gravada 
a inscrio: "2 Co 6.19, 20".
      -  o texto que o senhor leu, comentou ela.
      O Sr. Harold fez que sim, todo animado.
      -  para lembrar-lhe sempre que voc pertence a Deus e que, como voc mesma disse, seu corpo  um presente que precisa ficar embrulhado at o dia do seu casamento.
      - Obrigada! exclamou a garota, sem saber o que mais poderia dizer.
      - Experimente.
      Selena no sabia ao certo em que mo deveria usar aquele anel. Resolveu enfi-lo no anular da mo direita. Tinha a impresso de que era ali que ele deveria 
ficar.
      -  lindo! continuou ela. Obrigada, pai!
      - Que bom que voc gostou, disse ele e pegou uma colherada de sobremesa.
      Selena ficou alguns instantes a olhar para o dedo e depois comeu um pouco mais de doce. Parecia esquisito estar com uma jia que no fora ela que comprara. 
Alm do mais, iria precisar de algum tempo para acostumar-se a usar um anel de ouro.
      Wesley retornou trazendo a conta e outra vez olhou para a mo da irm. Sorriu para o pai.
      - Gostou? indagou ele. Eu ajudei papai a escolher.
      - Gostei.  muito bonita.
      - Papai falou que voc s usava jias de prata, mas achei que essa aliana, por ter um significado especial, precisava ser de ouro. Assim no parece que  
uma jia comum.  distinta das outras.
      Quando o rapaz estava falando, Selena notou, pela primeira vez, que ele tambm estava usando uma aliana semelhante na mo direita.
      - E voc? Quando foi que ganhou a sua? indagou ela, indicando a mo dele.
      - Na semana passada, explicou o rapaz. No mesmo dia que papai comprou a sua. E comprou uma para a Tnia tambm
      - Puxa, voc e papai saram pra jantar e eu nem fiquei sabendo! disse ela brincando.
      - No, ele me deu o anel no carro, quando estvamos voltando da joalheria. S voc e a Tnia  que vo ter uma noite especial para a entrega do anel, explicou 
Wesley.
      Em seguida, ele pegou o pratinho com a conta e o carto de crdito do pai.
      - Volto j, falou.
      Selena virou-se para o pai.
      - Como  que o senhor vai dar o da Tnia pra ela? indagou.
      - Ainda no sei, replicou ele, respirando fundo. Pensei que talvez voc pudesse lev-lo l para ela, na semana que vem, quando for  Califrnia. Obviamente 
no ser uma ocasio especial, como a que tivemos hoje, mas no sei quando ela vai voltar. Ou ento vou ter de fazer uma viagem at l para entregar-lhe a aliana.
      - Acho que ela iria gostar mais disso, comentou Selena.
      A garota no se sentia muito segura com a idia de entregar aquele anel para a irm. Assim, provavelmente, a jia no assumiria o significado especial que 
deveria ter.
      Wesley voltou e o pai assinou a nota do carto de crdito, pegando a folha que lhe pertencia. A garota percebeu que ele deixou uma generosa gorjeta para o 
filho. Em seguida, levantou-se. Selena pegou o buquezinho e segurou-o com um pouco mais de tranqilidade enquanto saam do restaurante. Quando j se achavam quase 
na porta, Ronny aproximou-se.
      - Voc vai  Highland House amanh? indagou o rapaz.
      - No, s na segunda-feira. Tenho de trabalhar o dia todo amanh.
      - Eu tambm, continuou Ronny.
      Ele trabalhava no restaurante apenas duas noites, mas tinha ainda o servio de aparar gramados, no qual, por vezes, ficava ocupado a semana toda.
      - Ento, tchau! disse o rapaz, afastando-se para ir arrumar outras mesas.
      Nesse instante, Amy puxou Selena para um lado. A saleta de espera estava lotada.
      - D uma ligadinha pra mim amanh cedo antes de ir trabalhar, 't bom? Se voc puder me emprestar sua saia azul, no vou precisar comprar uma roupa nova. Ela 
combina com a blusinha de veludo que comprei outro dia.
      - Posso emprestar, sim, replicou Selena. S que voc ter de ir  minha casa e me ajudar a procur-la. Meu quarto est uma baguna.
      - . Sei como  isso. Tenho andado to ocupada que no sobra tempo pra arrumar o meu.
      - , eu tambm vivo dando essa desculpa, comentou Selena. 'T, eu ligo pra voc.
      O Sr. Harold abriu a porta para a filha e os dois foram caminhando devagar pelo estacionamento. Agora ela no se sentia to constrangida, como se sentira no 
momento em que haviam chegado. Pensou que deveria ter pregado o buquezinho na roupa para agradar ao pai.
      - Sabe, principiou ele, espero que voc no perca sua vivacidade natural.
      - Como assim? quis saber Selena.
      -  que voc tem um jeito prprio de ser. Tem uma energia, um encanto prprio. Espero que no perca isso no seu relacionamento com os rapazes.
      Ele abriu a porta do carro e a garota entrou. Sentou-se, puxando a barra do vestido para que no subisse.
      - O senhor acha que vou perder? perguntou ela assim que o pai tambm entrou no veculo. Quero dizer, acha que no vou continuar sendo natural quando estiver 
na companhia de um rapaz?
      - No; creio que sempre agir com naturalidade ao lado um rapaz ou de outra pessoa qualquer. Isso  um dos seus traos fortes. O que eu estava querendo dizer 
 que voc possui um padro de conduta bastante elevado e que estou cem por cento de acordo.
      - Mas... disse Selena, dando-lhe a "deixa" para que continuasse.
      - Mas no se esquea de que  jovem. Deve procurar se divertir nessa fase da vida. Voc pode aproveitar a juventude e ao mesmo tempo conservar a pureza. O 
que estou querendo dizer  que no deve olhar tudo com muita seriedade. Isto , no comece a pensar que qualquer rapaz com quem voc sair  um provvel futuro marido. 
Fique tranqila e aproveite as oportunidades que lhe aparecerem de fazer amizade com muita gente. Quando chegar a hora, Deus ir encaminhar o rapaz certo para voc.
      Selena assimilou bem as palavras do pai. Antes de deitar-se, anotou em seu dirio tudo que ele dissera, da maneira como conseguiu recordar-se. Ele tinha razo. 
Precisava divertir-se tambm. No deveria ficar analisando cada rapaz que conhecia, para ver se ele era um crente espiritual.
      Fechou o dirio e apagou a luz. Acomodou-se debaixo das cobertas. Tocou de leve a aliancinha e girou-a no dedo. Era leve e bem lisa.
      Pela janela aberta, entravam os rudos noturnos. Um coral de grilos cricrilava. Um sapo se ps a coaxar, fazendo coro com eles. A brisa clida de vero balanava 
as cortinas leves do quarto. Ao claro da luz do poste da rua, elas pareciam nuvens a danar.
      Seu pensamento se dirigiu a Paul. Durante vrios meses, havia orado por ele. No final do semestre escolar, tivera uma breve iluso de que comearia um romance 
com o rapaz. Contudo esse sonho se desfizera no momento em que ele, com a maior frieza, lhe perguntara se era verdade que ela nutria uma "paixozinha" por ele.
      O que sentia por Paul Mackenzie jamais poderia ser considerado uma "paixozinha". Era algo bem mais profundo. Na verdade, ela no sabia que nome poderia dar 
a esse sentimento. Talvez fosse uma intensa ligao espiritual, porque orara por ele vrias vezes. Ou poderia ser tambm um sonho que ela j estava acalentando havia 
muito tempo. Selena reconhecia que era apaz de se convencer de qualquer idia, inclusive da iluso de que ainda havia algo entre ela e Paul.
      Contudo no existia a menor evidncia de que ele pudesse estar nteressado nela. De certo modo, a melhor deciso que ela poderia tomar seria se esquecer de 
tudo que se passara entre eles. Seria mais sensato empregar as energias emocionais na amizade com Ronny. Esse, sim, era um relacionamento que era capaz de cultivar 
com toda sinceridade e transparncia. Era uma amizade cheia de evidncias slidas, tipo "vida real", e no um bando de desejos e sonhos ilusrios.
      O mais difcil nisso tudo, porm, era o fato de que Selena no sentia liberdade para conversar sobre o assunto com ningum, nem mesmo com Amy. A nica que 
a compreenderia seria Cris. Na semana seguinte, iria encontrar-se com Cris e, se houvesse condies, poderia abrir o corao para ela. A amiga sabia o que era guardar 
algum no corao. Alm de ser mais velha que Selena, ela prpria tambm j encontrara o grande amor de sua vida - Ted. Os dois estavam aguardando a orientao de 
Deus para eles. Selena admirava bastante a Cris e desejava imit-la.
      Ps-se a orar pelo Paul e pelo curso que ele iria fazer na Esccia. Orou pelos seus estudos e pelos momentos que ele passaria com a av. Pediu a Deus que tudo 
isso lhe trouxesse grande enriquecimento espiritual. Embora o rapaz estivesse distante dela milhares de quilmetros, nada poderia impedi-la de pensar nele. Nada, 
nada mesmo, poderia impedi-la de orar por ele E assim caiu no sono.
      

Captulo Cinco
      
      Amy foi  casa de Selena no domingo  noite. Ainda se mostrava toda empolgada com o encontro que teria com Nathan. Viera buscar a saia azul da amiga. As duas 
procuraram a pea no quarto de Selena durante mais ou menos meia hora. Na verdade, foi Selena quem procurou, enquanto a outra permanecia sentada na poltrona, falando 
sem parar sobre o rapaz.
      - Ontem, fiquei sabendo que ele adora biscoito de amendocrem, informou ela. Ento estou pensando em fazer pra ele na tera  noite. Mas vai ser surpresa. Eu 
lhe contei que ele morava em Seattle e se mudou pra c recentemente? Pois . Ele disse que aqui faz mais calor do que l. Ei, olha sua saia a, debaixo dessa cala 
jeans.  ela!
      -  mesmo, concordou Selena. Que baguna! Eu devia ter ido pendurando essas roupas todas enquanto estava procurando. Toma. Est toda amarrotada, mas voc pode 
levar. Ah, e se voc resolver lav-la, tem de ser  mo e em gua fria. Depois, s torce e pe pra secar no varal. No pode secar na mquina no, o.k,?
      - Parece que est limpa. E esse tipo de roupa no se usa amarrotada mesmo? Est tima.
      Amy ficou olhando a saia por uns instantes e depois se voltou para a amiga.
      - E a, voc est empolgada com sua viagem de frias?
      - No sei se  bem uma viagem de frias, comentou Selena. ,  mais ou menos isso. Estou muito empolgada sim, continuou ela, abrindo o guarda-roupa e pegando 
alguns cabides para pendurar as peas que estavam jogadas por ali.
      - Bom, eu j vou, disse Amy. J so mais de 9:00h, e o Nathan pode ligar pra mim.
      Levantou-se e de repente virou o lado do rosto para a janela aberta, pondo-se a escutar algo.
      - Olha! exclamou. Tem um sapo coaxando l fora!
      - . Faz vrios dias que ele est a. Acho que est querendo competir com os grilos. Ontem  noite, fiquei um tempo acordada por causa do "concerto" deles.
      - ! Eles aprontam um barulho, n? Devem estar gostando do jardim de vocs. Tem muito lugar pra se esconderem.
      - ; deve ser isso mesmo, concordou Selena. No se esquea de me ligar contando como foi o encontro com Nathan. O vo sai s 10:00h da manh, na quarta-feira. 
Ento voc ter de me ligar na tera  noite, se chegar em casa antes das 11:00h, ou ento na quarta mesmo, antes das 9:00h.
      - 'T certo. Obrigada pela saia. Tchau pra voc!
      A garota saiu apressada e Selena correu os olhos pelo quarto, agora mais bagunado ainda.
      - No estou com a menor vontade de arrumar isso, resmungou consigo mesma.
      Deixou-se cair na cama e ficou a ouvir o rudo dos bichinhos noturnos. Puxou as cobertas at o queixo. Abriu a boca e, procurando colocar na voz um tom grave, 
tentou imitar o coaxar do sapo.
      Amanh arrumo o quarto, resolveu.
      Entretanto, na segunda-feira, no conseguiu levar avante a boa inteno. Aps o trabalho voluntrio na Highland House, acabou indo com o Ronny para o ensaio 
da banda dele. Foram para a casa de um rapaz do grupo e ficaram quase duas horas, fechado dentro de uma garagem abafada, passando e repassando a mesma msica diversas 
vezes. No fim, ela no estava mais agentando aquilo e sentia-se arrependida de ter ido ali.
      Afinal, quando ela e Ronny foram embora, resolveram parar numa lanchonete para comer algo. Assim que chegou em casa, s queria cair na cama. Nem mesmo o coral 
dos grilos inspirou-a a viajar pela terra dos sonhos.
      A tera-feira tambm foi to agitada quanto o dia anterior. Pela manh, foi trabalhar na confeitaria Mother Bear. A tarde, de 2:00h s 5:00h, ajudou no servio 
da Highland House. Depois retornou  confeitaria, onde trabalhou mais duas horas.
      Finalmente, na tera-feira, s 8:30h da noite, Selena conseguiu tempo para jogar algumas roupas numa sacola de viagem e em seguida embrulhar o presente de 
Douglas e Trcia. Sabendo que a amiga gostava muito de ch, ela lhe comprara um bulezinho de porcelana decorada, na tradicional feira de Portland. Era um objeto 
diferente, obra da arte polonesa. Em outra lojinha da feira, encontrara algumas xcaras que combinavam com o bule, formendo o jogo. Agora estava arrumando o pacote, 
envolvendo as peas em papel de seda. Por fim, depois de muito procurar, arranjou tambm uma caixa para acondicionar o presente.
      Na quarta-feira, por volta de 8:30h, Selena j estava com tudo arrumado. Levou a sacola para o andar de baixo e parou junto  porta da entrada. Foi ento que 
sua me lhe entregou o telefone sem fio. Era Amy.
      - Oi! disse Selena. J estou de sada. Ainda bem que voc me encontrou aqui. E a? Quero saber tudo, mas bem depressa. Aonde vocs foram? Foi legal?
      - Posso resumir tudo em duas palavras: estou apaixonada, respondeu Amy, soltando um suspiro.
      - Ah, que  isso? indagou Selena rindo. Deixe de brincadeira!
      - Estou falando srio, interveio Amy. Nathan  o cara perfeito pra mim. Primeiro, fomos jantar fora. No foi um jantar chique, nem nada. Fomos a uma lanchonete 
perto de Belmont. Um lugar lindo! Depois, demos um passeio no parque. Ele segurou minha mo. Foi to romntico! Fomos para aquelas gangorras que tem l, e ele me 
balanou mais ou menos meia hora. Depois, rodamos no carrossel e, em seguida, fomos ao escorregador e descemos os dois juntos. Eu ri tanto! Ah, deu um rasgo em 
sua saia. Foi s um pequenininho. Quase nem d pra ver. Mas vou consertar, viu?
      - Como foi que aconteceu isso? perguntou Selena, tentando falar com voz tranqila.
      - Ela agarrou na gangorra. Mas nem d pra ver direito. No fique com raiva, no, 't?
      - No estou com raiva, no. S queria saber.
      - Quer que eu conte o resto, ou no?
      A me de Selena apareceu  porta e olhou para a filha, que estava sentada no ltimo degrau da escadinha. Deu uma batidinha de leve no relgio e fez uma expresso 
como quem diz: "Vamos embora!"
      - Quero, mas conta depressa, disse a garota para a amiga.
      - Entramos no carro e fomos dar uma volta. Chegamos num lugar de onde a gente avista uma parte da cidade at o rio.  uma vista maravilhosa, com as luzes acesas. 
 to tranqilo Depois... tem certeza de que quer que eu conte?
      - Claro!
      - Bom, primeiro ele me beijou. Depois, eu o beijei. A beijamos mais um pouco e...
      - Amy! gritou Selena. 'T falando srio? Por que voc fez isso?
      - Calma, Selena! Menina, voc me deu um susto com esse grito! Ns s beijamos. No tem nada de errado nisso. Foi muito romntico. Ele ligou o rdio do carro...
      Nesse ponto, ela parou e mudou de tom.
      - Puxa, Selena, por que voc gritou assim comigo? Sei que foi nosso primeiro encontro, mas no fizemos nada de errado, absolutamente nada. No gostei nem um 
pouco de sua reao, dando a entender que o que fiz foi errado.
      - Espere, Amy, interveio Selena. No tinha a inteno de ser to rigorosa. Mas o fato  que vocs mal se conhecem. Acho que voc deveria ir mais devagar.  
s isso.
       A outra no respondeu. Selena ouvia a respirao da amiga do outro lado da linha.
      - Olhe aqui, Amy, continuou Selena, eu ligo pra voc no domingo  noite, quando eu chegar. Talvez na segunda a gente possa se encontrar pra conversar, o.k.?
      - Acho que no temos nada pra conversar, retrucou Amy. Eu lhe contei sobre a noite mais romntica da minha vida e voc logo se ps a me julgar. Por que no 
pode ficar alegre com a minha felicidade? Nunca pensei que voc teria esse tipo de reao, Selena!
      A me de Selena pegou a sacola da filha.
      - Selena, temos de ir agora, disse ela em voz firme, seno voc vai perder o avio.
      A garota acenou que sim para a me.
      - Tenho de ir embora, Amy. Depois a gente se fala mais. No faa nada... e aqui ela se interrompeu sem saber como concluir a frase.
      - O qu? quis saber a outra. No faa nada que voc no faria? continuou Amy com voz sarcstica. No sou freira, Selena. Mas tambm no sou nenhuma sem-vergonha. 
Ento no comece a me dar a impresso de que sou.
      - No quis dar essa impresso, no, defendeu-se Selena. Assim que eu voltar, telefono pra voc. Tchau!
      Desligou o telefone e se levantou para pegar a sacola na mo da me.
      - Algum problema? indagou a me.
      - Acho que sim. No sei. Amy conheceu um cara no trabalho dela e agora, de repente, est apaixonada por ele.
      As duas desceram a escada e se dirigiram para a perua.
      - Ela  to impulsiva! continuou Selena. s vezes me preocupo muito com ela.
      - , entendo, comentou a me, entrando no veculo e introduzindo a chave na ignio. Est com a passagem?
      - Est aqui na mochila, explicou Selena, puxando a "fiel companheira" e abrindo o zper do bolsinho dela. Est aqui!
      Pegou a passagem e leu as informaes nela impressas.
      - O horrio da partida  10:12h. D tempo pra chegarmos l sem nenhum problema.
      - Est levando o presente?
      - Est na sacola.  por isso que ela est pesada. Espero que chegue bem l.
      Selena recostou-se no assento, e a me pegou a via expressa que dava acesso ao aeroporto. As ltimas palavras que dissera ecoavam em sua mente. Ficou preocupada 
com a idia de que seu lindo presente chegasse l todo desajeitado, o lao amassado, a caixa achatada. Pensou em como teria vergonha de dar um presente assim para 
seus amigos. Em seguida, lembrou-se de Amy. Acho que foi por isso que tive uma reao to brusca com a Amy quando ela disse que eles tinham "ficado" no carro de 
Nathan, raciocinou ela. Alguns dias antes, ela dissera ao pai que se via como um presente que queria dar ao seu futuro marido, e afirmara ainda que desejava que 
o invlucro dele estivesse intacto. Talvez o que Amy e Nathan tinham feito no fosse mesmo errado, do ponto de vista da Amy. Entretanto o invlucro do presente dela 
j no estava intacto. Selena desejou ter tido mais tempo para falar com a amiga. As duas nunca haviam conversado sobre suas opinies e seu padro de conduta. Era 
bem possvel que Amy no pensasse da mesma forma que Selena. E ser que a amiga iria querer ouvir a sua opinio a respeito do namoro?
      Chegando ao setor de embarque do aeroporto, Selena deu um abrao de despedida na me e foi despachar a bagagem. Como arrumara a mala na ltima hora, trouxera 
mais roupas do que precisaria. Ao lembrar-se disso, ficou mais tranqila. As roupas iriam acondicionar o presente, atuando como uma proteo para ele. Com a passagem 
na mo e a mochila ao ombro, dirigiu-se para o porto de embarque. Os passageiros j estavam subindo a bordo. Chegou bem a tempo. Foi para seu assento, colocou a 
mochila debaixo do banco da frente e se ps a olhar pela janelinha.
      A primeira providncia que iria tomar, assim que voltasse, seria ligar para Amy. O grande problema, porm, era que a amiga talvez no quisesse ouvir o que 
ela tinha para lhe dizer.
      

Captulo Seis
      
      Selena se levantou, juntamente com os demais passageiros, aguardando que todos caminhassem para a sada do avio. Sabia que Tnia estaria esperando-a. Ela 
era bastante meticulosa em muitos aspectos. Um deles era a pontualidade nos compromissos.
      E realmente, assim que Selena entrou no terminal, a primeira pessoa que avistou foi a linda irm. S que Selena levou um pequeno susto ao v-la. Tnia havia 
tingido o cabelo. Em vez do louro natural, agora ele estava com a cor acaju. Aquele tom castanho-avermelhado a deixava com um ar ainda mais sofisticado e com jeito 
de adulta.
      Quando Tnia se mudara para a Califrnia, comeara a trabalhar como modelo numa pequena empresa da prpria cidade onde morava. E olhando-a ali, de p, a esper-la, 
Selena achou que a irm parecia mesmo uma modelo perfeita.
      - Voc estava na cauda do avio? indagou ela para Selena, dando-lhe um abrao formal.
      - No, no meio, replicou Selena.
      - Humm, parece que voc demorou tanto para sair...
      - E voc no pode pelo menos dizer: "Oi, Selena! Que bom que voc chegou!"? Por que tem logo de me criticar por haver demorado a desembarcar?
      - No estava criticando. E  claro que acho muito bom que voc tenha vindo aqui.
      Aa duas saram caminhando em silncio em direo ao setor de recolhimento das bagagens. Por fim, Selena disse:
      - Acho que estou preocupada com um problema. Desculpe, Tnia. Seu cabelo est muito legal! Como  que est sua vida aqui? Tudo bem?
      - Maravilhosa! Recebi outra oferta para fazer fotos para um catlogo de uma loja, Castle Clothes, e isso  timo. Pagam muito bom. O salrio  melhor do que 
o dos trabalhos que tenho feito at agora, fazendo apresentaes em restaurantes.
      - Em restaurantes?
      - ; eu trabalho numa butique que fica ao lado de um restaurante chique aqui de Carlsbad. E todos os dias, na hora do almoo, fico circulando pelo salo, cada 
hora com uma roupa de loja. Falo com os freqentadores sobre as peas que estou usando e distribuo cartes nossos. No ganho muito, mas tambm trabalho poucas horas.
      - Nunca ouvi falar desse tipo de atividade, apresentar roupas em restaurantes.
      - Pois  muito comum por aqui.
      Tnia conduziu a irm para o local onde ficava a esteira rolante. As duas continuaram conversando enquanto aguardavam que a bagagem de Selena aparecesse.
      - As fotografias que vou fazer para o catlogo da Castle vo ser tiradas em La Jolha, que no  muito longe de onde moro. Vou trabalhar l uns quatro ou cinco 
dias. A sim, vou ganhar muito dinheiro.
      - Como vai o Jeremy?
      - timo! respondeu Tnia, com um sorriso de satisfao.
      - Cris combinou alguma coisa com voc? indagou Selena. No sei onde vou ficar.
      - U, ela no lhe falou?  na casa da Marta.
      - Na casa da tia dela? Vou ser a nica que vai ficar l? perguntou Selena meio tensa.
      Ela j estivera naquela luxuosa casa de praia. Era maravilhosa, mas Selena no gostava muito da Tia Marta. Tnia, porm, gostava. Fora Marta quem a havia incentivado 
a tentar a carreira de modelo.
      - No se preocupe. A Cris e a Katie tambm vo ficar l.
      - Olhe a minha mala! Deixe que eu a pego.
      Com muito cuidado, a garota retirou a sacola de viagem da esteira e, em seguida, as duas se encaminharam para o estacionamento.
      - Est com fome? quis saber Tnia. Quer almoar antes irmos para a casa de Bob e Marta? Tirei a tarde toda de folga, qualquer hora que voc chegar l est 
bem para eles.
      Selena viu isso como uma atitude amistosa da irm. No era sempre que ela se dispunha a passar alguns momentos em sua companhia. Achou que era melhor ento 
aproveitar bem essa oportunidade.
      - Claro! Aonde voc quer ir? Eu pago, 't? Tenho trabalhado muito nestas frias e, portanto, estou com dinheiro at demais.
      Tnia ergueu ligeiramente as sobrancelhas finas, no momento em que destrancava o carro.
      - Est bem! Ento vou deix-la pagar. Mas no vai demorar muito e voc tambm vai querer comprar seu carro e alugar um apartamento para ir morar sozinha. A 
voc vai ver como o dinheiro evapora rpido.
      Rodaram na direo da praia. Tnia parou num pequeno restaurante a poucas quadras do mar. Era uma casa adaptada, com mesas ao ar livre tambm. Na entrada, 
havia um portozinho branco, feito de ripas. Perto, havia uma trelia, na qual se via uma trepadeira de madressilvas, desprendendo no ar um perfume adocicado.
      - Vi este restaurante aqui semanas atrs, explicou Tnia. E me pareceu ser muito legal. Tentei convencer o Jeremy a vir comigo, mas ele no mostrou muito entusiasmo. 
Acho que  mais um lugar para mulheres, para irms.
      Selena teve uma sensao agradvel ao ouvir isso. , acho qie estamos mesmo ficando adultas, pensou. Almoar num restaurante assim, uma casa aconchegante, 
era coisa de irms adultas, no de meninas.
      A recepcionista conduziu-as a uma das mesas ao ar livre, protegida por um guarda-sol amarelo-claro, e entregou-lhes os cardpios, uma longa folha de papel 
com desenhos de margaridas. Pelo que dizia o menu, tudo era feito no prprio dia. A especialidade da casa, obviamente, eram as saladas.
      E durante duas horas, Selena e Tnia ficaram ali conversando e rindo, desfrutando da companhia uma da outra. Selena estava adorando ouvir a irm contar casos 
sobre o relacionamento com Jeremy. Bem l no fundo, sabia que a razo de gostar tanto de escut-la no era unicamente o fato de os dois serem namorados. O principal 
motivo era que o rapaz era irmo de Paul. Ouvindo Tnia falar sobre Jeremy, em certos aspectos, era como ouvir a respeito de Paul.
      Afinal, pediram a conta, e Selena levou um susto. Deu quase 30 dlares. Ela trouxera o dobro disso, portanto no teria pro-blema para pagar. S que tinha dificuldade 
para entender como duas saladas, um pratinho de frios e dois chs de amora gelados custavam tanto. Acabou se convencendo de que esse era o preo que se pagava por 
se tornar adulta. Contudo valia a pena ter tal despesa para passar momentos como aquele ao lado da irm.
      Quando voltavam para o carro, Tnia comentou:
      - Notei que voc est usando uma aliancinha. Achei que iria me contar quem te deu esse anel.
      - Ah... principiou Selena, girando a jia com o polegar, na verdade...
      No sabia ao certo se deveria relatar a histria toda, falando sobre o jantar com o pai e tudo mais. Ser que deveria mencionar que ele iria dar uma para Tnia 
tambm? Ou deveria conversar, dizendo que no era nada importante?
      - Ganhou isso de algum admirador secreto? insistiu a irm com um tom brincalho na voz. Do Ronny, talvez?
      - No. No foi o Ronny que me deu, no. Foi papai.
      - Papai?
      Selena fez que sim. Tnia se ps a rodar pela estrada que acompanhava o oceano.
      - Papai lhe deu uma aliana de ouro? indagou, com os olhos arregalados de espanto.
      - Quer dizer, foi Wesley quem teve a idia de comprar de ouro. Papai ia comprar um anel de prata. Mas como o Wesley j estava com um de ouro, sugeriu que o 
meu tambm fosse de ouro. Ele simboliza um compromisso de pureza. No interior dele h um versculo gravado. Serve como um lembrete pra mim de que prometi a Deus 
que vou permanecer pura at me casar.
      Tnia no disse nada.
      - Papai comprou um pra voc tambm, continuou Selena. No sei se era pra lhe contar isso. Ele me pediu pra trazer o anel pra voc, mas achei que era melhor 
ele mesmo dar pessoalmente. Papai vai arranjar uma data pra vir aqui. Mas, por outro lado voc pode ligar pra ele e dizer que lhe contei tudo e, de repente ele pode 
simplesmente mand-lo pelo correio.
      - 'T bom. No tem importncia.
      Selena ficava nervosa quando a irm dizia algo assim.  que Tnia era filha adotiva. Vez por outra, dava a impresso de se sentir como uma intrusa na famlia. 
Talvez ela estivesse se sentindo desse jeito agora, por causa da histria do anel. Selena devia ter visto como seria importante que ela tivesse trazido a aliana 
para d-la  Tnia.
      - Um anel de pureza  muito significativo para algum da sua idade. Que bom que papai lhe deu um.
      - Sinto muito, Tnia. Devia ter trazido o seu.
      - No tem importncia, no, repetiu a outra. Estou falando srio.
      Um pesado silncio envolveu as duas.
      - Bom, disse Tnia afinal, procurando mudar de assunto, acho melhor eu j lhe dizer quais so os planos do pessoal para este final de semana, pelo menos os 
que estou sabendo. Hoje  noite vai haver um ch-de-panela para a Trcia na casa dos pais dela. Os rapazes tambm vo fazer uma festinha para o Douglas na dos pais 
dele. Amanh tenho de trabalhar, mas na sexta-feira  terde, assim que sair do servio, vou voltar. O casamento vai ser aqui mesmo em Newport Beach.
      - Lembrei-me de uma coisa, disse Selena. No tenho presente para o ch-de-panela.
      - Se voc quiser, ponho seu nome no meu presente, e voc racha comigo o preo dele.
      - Boa idia! E quanto  a minha parte?
      - S 22 dlares.
      Vinte e dois dlares! pensou Selena. Meu dinheiro est indo embora feito gua!
      Naquele instante, chegaram  casa de Bob e Marta. Uma velha kombi estava estacionada  frente dela. O veculo parecia totalmente deslocado naquele bairro de 
residncias carssimas.
      - Que ser que esse carro est fazendo a? disse Selena, pensando alto.
      - Voc no conhece a velha "kombinada", no?  do Ted. Eu tinha ouvido falar que ele iria larg-la num cemitrio de carros. Mas  possvel que ainda tenha 
descoberto algum sopro de vida na "velhinha".
      Tnia puxou o freio de mo e em seguida a alavanca para brir o porta-malas. Selena pegou sua sacola de viagem e fechou-o. Nesse momento, a irm j se encontrava 
 porta, tocando a campainha. Quem veio atender foi Marta, uma mulher morena, baixinha, muito bem arrumada. Cumprimentou a jovem dando-lhe um beijinho em cada face, 
sem contudo encostar no rosto dela. Avistando Selena, estendeu-lhe a mo de unhas bem manicuradas e disse:
      - Que prazer em rev-la!
      Selena foi entrando lentamente, arrastando a sacola e procurando no esbarr-la em nada. Mal haviam fechado a porta, quando apareceu Bob, o tio de Cris, que 
abraou as garotas com seu jeito alegre.
      - Vamos entrando, meninas! disse ele. Aqui, me d sua sacola.
      Selena fitou-o demoradamente, no conseguindo tirar os olhos dele. Quando o conhecera, no recesso da Pscoa, a impresso que tivera dele fora de um homem saudvel, 
cheio de energia. Era mais baixo que seu pai e um pouco mais cheio de corpo. Tinha o rosto queimado de sol e cabelo escuro. Trazia sempre nos olhos um brilho amistoso. 
Era um homem muito simptico. No poderia ser considerado um astro de cinema, mas era bonito. Contudo, na poca do recesso de Pscoa, ele sofrera um acidente. Uma 
churrasqueira a gs explodira. Agora a garota via a extenso das queimaduras que ele sofrera. A cicatriz ia da orelha esquerda - que ficara bastante deformada - 
at a base do pescoo, do mesmo lado. A pele dele estava avermelhada, enrugada e com uma marca feia. Embora Selena tivesse estado presente no dia do acidente, no 
fazia idia de que havia sido to grave.
      Bob ficara profundamente traumatizado com o acontecido. Alis, ao final daquela semana, ele testemunhou que acabara entregando a vida a Cristo. Com aquele 
acidente, ele compreemdera o quanto a vida humana era frgil e entendera que precisava ter paz com Deus.
      Quando Selena viajara de volta para casa, dias depois, ia com a sensao de que a tragdia tivera um final feliz. Contudo, vendo que Bob teria de carregar 
aquela cicatriz pelo resto da vida, j no pensava mais assim.  verdade que, por causa disso, quando ele morresse, iria para o cu, mas ficaria marcado at o fim 
de seus dias. Lembrou-se de Amy. E se, no namoro com o Nathan, ela fosse avanando cada vez mais? Ao pensar nisso, Selena estremeceu.
      Embora sempre se possa tirar algum proveito de um "acidente", pensou, algum pode acabar ficando marcado pelo resto da vida.  

Captulo Sete
      
      - Acabem de entrar, meninas! disse Bob para as recm-chegadas. O Ted e a Cris esto l fora. Querem beber algo? E almoar? Esto com fome?
      - No, obrigada. Paramos num restaurante e almoamos, explicou Tnia, dando uma olhada para o relgio de pulso. Tenho de ir embora. Estou encarregada de pegar 
o bolo para o ch-de-panela, e no sei ao certo quanto tempo vou demorar para apanh-lo e ir para a casa da Trcia.
      - Fique  vontade, prosseguiu Bob, subindo as escadas com a sacola de viagem da Selena. Pode voltar  hora que quiser. Estamos pensando em jantar todos aqui, 
voc sabe, n? O convite  para todos.
      - Obrigada, replicou a jovem e, virando-se para Marta, continuou: Se o Jeremy ligar, por favor, diga a ele aonde fui. Creio que vou estar de volta aqui l 
pelas 5:30h. Ele vai vir com alguns rapazes de San Diego, mas no sei a que horas vo chegar.
      - Eu falo com ele, disse Marta. Voc gostaria de levar meu celular? Assim pode ligar para c, se precisar.
      - Pode deixar.
      - No, leva sim, eu insisto.
      Marta pegou a bolsa que se achava sobre uma mesinha com tampo de mrmore, junto  escada, e deu o telefone para Tnia.
      - Aqui, disse. Voc sabe nosso nmero, no sabe? Ento  s ligar para verificar como est indo tudo.
      - 'T bom, obrigada. Depois a gente conversa mais, Selena.
      A jovem saiu rapidamente porta afora, deixando a irm sozinha com Marta.
      Selena sorriu.
      Marta retribuiu o sorriso.
      Pode ter sido apenas imaginao, mas a garota teve a sensao de que aquela mulher no gostava muito dela. Nesse momento, experimentou certo sentimento de 
culpa, pois tambm no a apreciava muito. A tia de Cris ergueu um pouco o rosto e disse em tom meigo:
      - Bom, vamos l ver o Ted e a Cris.
      Em seguida, foi caminhando  frente de Selena, atravessando a sala elegantemente decorada e dirigindo-se para o ptio que ficava nos fundos da casa.
      -  Cris, disse Marta antes mesmo que chegassem  porta. Sua amiga est aqui, Cristina.
      E saram para o ptio que dava para a maravilhosa praia e o mar imensamente azul. Os dois jovens se encontravam sentados a uma mesa recoberta por um guarda-sol, 
um de frente para o outro. Estavam de mos dadas e se fitavam intensamente. Selena teve a forte impresso de que a chegada delas viera interromper uma conversa muito 
particular dos dois. Desejou que no houvessem ido ali naquela hora.
      Contudo, o Ted imediatamente se levantou e lhe deu um abrao carinhoso. Cris veio logo atrs dele e tambm abraou-a apertado. Afinal, as duas amigas se separaram 
e se olharam com um sorriso alegre e cumprimentos entusisticos.
      Selena percebeu que apesar de Cris estar sorrindo, tinha lgrimas nos olhos. Ela estava se esforando para cont-las. Selena compreendeu que, se ela e Marta 
no houvessem chegado ali naquele momento, ela teria chorado. Entendeu tambm que no ficaria tranqila enquanto no pudesse ter uma conversa em particular com a 
amiga e indagar o que acontecera.
      - Foi bem de viagem? perguntou Ted.
      O sorriso clido e constante do rapaz comunicou a Selena uma agradvel sensao. Ou ele no estava aborrecido como a Cris estava, ou ento sabia disfarar 
bem os sentimentos.
      - Muito bem, replicou ela. A viagem foi tima. Eu e a Tnia paramos para almoar num restaurante muito legal. Foi muito bom.
      Nesse momento, Bob tambm chegou ao ptio. Selena deu outra olhada despistada para Cris. Ela parecia ter controlado as lgrimas rapidamente.
      - Sua sacola est no quarto de hspedes, explicou o tio. Precisa de mais alguma coisa? Quer telefonar para casa e avisar que chegou bem? Ou vocs, jovens de 
hoje, no ligam mais para esses cuidados?
      - Mais tarde eu ligo, respondeu Selena. Alis, preciso telefonar tambm pra uma amiga.
      - Pode telefonar agora, se quiser, insistiu Bob.
      Selena no sabia se Amy estaria em casa quela hora.
      - Ento acho que vou tentar, disse ela, se puder.
      - Claro! Fique  vontade. A extenso mais prxima  a da cozinha.
      - , eu me lembro, respondeu a garota, entrando de volta na casa.
      Ela se recordava que fora no fone da cozinha que ela e Cris haviam chamado o "Resgate" no dia do acidente de Bob. Sentia-se meio estranha agora, meses depois, 
fazendo o mesmo trajeto - do ptio para a cozinha.
      Discou o nmero de casa, mas a chamada caiu na secretria eletrnica. Deixou um breve recado para os pais, dizendo que havia chegado bem e que tudo estava 
certinho. Sabia que eles iriam gostar de ela ter telefonado.
      Em seguida, ligou para Amy e a tambm veio a secretria eletrnica. Como no pensara em algo para dizer, nem sabia quem iria ouvir a gravao, disse apenas: 
"Amy, aqui  a Selena. Depois ligo pra voc de novo. Tchau!"
      Oh, que idiotice! pensou assim que desligou. Poderia ter deixado um recado codificado mais ou menos assim: "Lembre-se do que eu lhe disse hoje cedo". , como 
se isso fosse adiantar muito. Ela acha que est apaixonada por esse rapaz. Provavelmente os dois esto juntos agora.
      Selena permaneceu alguns instantes na cozinha, em silncio.
      Por que estou deixando esse assunto me incomodar tanto? A Amy  responsvel pelos prprios atos. No sou seu anjo da guarda nem a sua conscincia. Mas ela 
comea a levar a srio seus relacionamentos com rapazes imediatamente! E se fizer o mesmo com o Nathan? Pode acontecer muita coisa enquanto estou aqui!
      - Senhor, disse ela em voz baixa, no sei como  que vou orar por Amy. Mas por favor, Pai, protege-a. No deixe que acontea nada de errado entre ela e o Nathan. 
Quero muito que ela se torne uma crente fiel e que permanea pura.
      Concluiu dizendo "amm" apenas com os lbios e virou-se para voltar ao ptio onde os outros estavam. Contudo interiormente ainda se sentia desinquieta. Como 
poderia ficar tranqila se, em casa, a amiga Amy estava com a cabea no ar por causa de um rapaz, e ali, a Cris parecia estar com um problema srio?
      Ah, os problemas de relacionamentos! Quem garante que vou resolver os meus simplesmente por haver feito um credo e tomado uma deciso? No estou conseguindo 
ficar calma nem ao ver que minhas amigas esto vivendo relacionamentos intensos!
      Parou no meio da sala e foi a que entendeu algo: seu raciocnio estava completamente errado. No era ela que tinha de cuidar das amigas, nem dos problemas 
delas; era Deus. O que devia preocup-la mais era seu prprio relacionamento com a pessoa mais importante - o Senhor.
      Naquele momento, teve uma sensao ligeiramente desagradvel que parecia concentrar-se na boca do estmago. Sabia que sempre que tinha esses pequenos "relmpagos"de 
entendimento, Deus estava para ensinar-lhe alguma lio. Isso significava, ento, que iria crescer espiritualmente. No gostava muito desse aspecto do processo de 
se tornar adulta.
      Caminhando de leve, saiu para o ptio. Bob se achava junto  mureta de tijolos, conversando com um vizinho. Era um senhor mais velho, quase totalmente calvo 
que, ao que parecia, estava dando uma volta com seu cachorrinho, seguro por uma correia. Marta se encontrava sentada  mesa com Ted e Cris. Ela conversava animadamente 
enquanto os dois a escutavam atentos.
      Sem saber direito onde deveria ficar, Selena aproximou-se da mureta e estendeu a mo para fazer um agrado no cozinho. Este soltou um latido agudo e o dono 
puxou a coleira.
      - Desculpe! falou a garota meio sem graa.
      - Tem nada no, disse o homem. Cala, Mitsy!
      Cris levantou-se e chegou perto de Selena.
      - Vamos dar uma volta? indagou.
      - Vamos.
      - Voltamos daqui a mais ou menos uma hora, disse Cris para o tio.
      - O.k., respondeu ele.
      No momento em que as duas passavam pela mureta, Selena notou que Marta ainda estava falando algo com Ted, mas os olhos dele se achavam fixos na namorada.
      - Voc se importa se caminharmos na areia? quis saber Cris
      - No, eu gosto. Achei timo voc ter me chamado.
      - E eu estou to alegre de voc estar aqui!
      Cris pegou uma "xuxinha" que se achava em torno do pulso e prendeu-a no cabelo castanho-claro, fazendo um rabo-de-cavalo no alto da cabea. Cris era mais alta 
que Selena e tinha uma graa natural ao caminhar.  verdade que no era to elegante nem to linda quanto Tnia. Contudo tinha uma expresso franca no rosto e uma 
sinceridade no olhar que a tornavam extremamente atraente. Seus olhos azul-esverdeados possuam uma beleza singular. Selena notou que outra vez eles estavam se enchendo 
de lgrimas.
      - Aconteceu tanta coisa nesses ltimos dias! disse Cris, caminhando em direo  beira d'gua, onde a areia era mais compacta e facilitaria a caminhada. Minha 
cabea est to cheia que parece que a qualquer momento vai "pifar", como um disco rgido de um computador.
      - O que houve, Cris? indagou Selena, tirando as sandlias e enterrando os dedos dos ps na areia quente.
      Na praia, ainda se viam alguns banhistas. Vrias crianas brincavam na gua, rindo e soltando gritinhos. Aquele cenrio tranquilo constitua um marcante contraste 
com a atmosfera pesada que cercava Cris. Esta soltou um longo e profundo suspiro.
      - Acabo de receber a comunicao de que a faculdade onde eu queria estudar aceitou minha matrcula. Eu j havia feito um requerimento antes, mas eles recusaram. 
Por causa disso, comecei a dar andamento em outros planos. Agora, me comunicaram que surgiu uma vaga l. Tenho apenas duas semanas para resolver se vou ou no.
      Uma onda veio deslizando e se desfez exatamente no ponto onde as duas se encontravam. Selena levou um ligeiro susto com o contato frio da gua.
      - Est muito difcil pra voc decidir se vai ou no?
      Cris fez que sim. As duas caminharam em silncio por alguns minutos, sentindo o mar bater no tornozelo delas e depois correr de volta areia abaixo. Selena 
deu uma olhada para a amiga e viu seus olhos cheios de gua. Uma lgrima ecorreu-lhe pelo rosto.
      - Essa escola fica na Sua, Selena! explicou ela em voz suave.
      

Captulo Oito
      
      Selena foi caminhando silenciosamente ao lado da amiga. Sabia que seria muito difcil para Cris tomar aquela deciso. Como ser que ficaria o namoro com Ted 
se ela fosse para to longe? Ser que a distncia prejudicaria o relacionamento deles? E havia tambm o fator "aventura". Elas j haviam conversado sobre isso ao 
telefone. Tinham chegado  concluso de que Selena era mais do tipo que gostava de uma viagem longa, como a que haviam feito em janeiro,  Inglaterra, na qual se 
conheceram. Embora Cris tivesse apreciado aquela estada na Europa e dito que tudo que Deus realizara ali fora perfeito, por natureza, ela preferia ficar mais quieta 
em casa.
      - , principiou Selena, d pra sentir que se trata de uma deciso muito difcil pra voc.
      E eu acho que no deveria ser, comentou Cris, parecendo um pouco irritada consigo mesma. Quero dizer, quem no gostaria de ir para a Sua? A faculdade tem 
um curso peculiar, que alia o estudo terico ao trabalho prtico. Portanto eu faria dois anos de estudos em um s.
      - Voc teria de ficar l um ano?
      - Teria, respondeu Cris com voz abafada. O mnimo que se pode fazer  um semestre, mas eles querem que a gente fique um ano. O trabalho prtico  num orfanato, 
e  muito ruim para as crianas se as monitoras forem trocadas de poucos em poucos meses.
      Continuaram a andar, e Cris falou mais sobre a escola. Reconhecia que era o curso certo para ela, pois estaria preparada para o ministrio que pretendia desenvolver: 
trabalhar com crianas.
      - Mas isso implica ficar longe do Ted e da minha famlia durante esse tempo todo. No sei se estou muito disposta a isso.
      - O que  que seus pais acham? quis saber Selena.
      - Eles acham que  uma oportunidade maravilhosa, mas que sou eu quem deve decidir. Recebi a oferta de uma bolsa de estudos. Meus pais no poderiam pagar um 
curso como esse para mim. Contudo disseram que vo me dar todo o apoio naquilo que eu resolver. Esto orando para que eu tome a deciso certa.
      - E o Ted? indagou Selena.
      Outra lgrima escorreu pelo rosto de Cris.
      - Tambm est orando para que eu faa a escolha mais acertada.
      Selena tentou imaginar como se sentiria se tivesse de tomar uma deciso de tamanha importncia. Sabia que, se fosse ela, iria para a Sua no mesmo instante. 
Contudo, se tivesse um namorado como o Ted, o problema ficaria bem mais complicado. Pensou numa pergunta que lhe pareceu meio tola, mas falou assim mesmo.
      - Ser que o Ted no poderia ir pra l tambm?
      - No, replicou Cris. Ele fez o curso universitrio todo "picado". Pra voc ter uma idia, j estudou em trs faculdades e, ainda por cima, fez um curso por 
correspondncia quando estava na Espanha. Ele precisa estudar mais um ano inteiro pra terminar os estudos e se formar. Na Sua, at onde sabemos, no h nenhuma 
escola em que ele possa estudar.
      Cris parou um pouco e deu um suspiro profundo.
      - Voc se importa se a gente sentar um pouco? perguntou.
      - No, claro que no!
      Procuraram um canto que estivesse mais afastado dos banhistas e se sentaram.
      - Que areia quente! exclamou Selena.
      - Afaste a camada de cima com as mos, assim, instruiu Cris, mostrando como se fazia. O Ted sempre faz isso. Ou ento ele pe a sandlia virada com a sola 
para cima e se senta sobre ela.
      Selena removeu a primeira camada de areia abrindo um espao e se acomodou no buraco feito.
      - Bem melhor, comentou. Mas me senti igual a um gatinho "ciscando" a areia higinica.
      Cris soltou uma risada e, com isso, quebrou-se a tenso.
      - Agora me diga o que vem acontecendo com voc, pediu Cris. Estou s falando dos meus problemas. Nem lhe perguntei como est passando.
      - Ah, mas no tenho muita novidade pra contar, no, respondeu Selena, dando uma piscadela. No ganhei nenhuma bolsa de estudo na Sua.
      - , falou a amiga, a sua vez vai chegar j, j.
      - A voc j ter passado por tudo isso e ter tomado as decises certas, comentou ela brincando. Ento, quando chegar minha vez, poder me dizer exatamente 
o que devo fazer.
      Cris riu de novo.
      - , no fique contando muito com isso. Uma lio que j aprendi  que Deus  muito criativo e "escreve" uma histria diferente para cada um de ns. Parece 
que no existem duas iguais.
      - E agora voc vai me dizer que no existe outro Ted "vagando" por a, s esperando que aparea ma garota como eu.
      Cris deu um leve sorriso, mas em seguida apertou os lbio numa expresso contemplativa.
      - Sabe? disse ela. Todo mundo acha que o Ted  um cara perfeito.
      - Voc no?
      - Ele no  perfeito, no, explicou Cris. Veja s. Ele  filho nico e os pais so divorciados. Por causa disso, s vezes, ele term dificuldade para se "ligar" 
em outras pessoas e se abrir com elas.
      - Mas com voc ele se abre, no ? E com seus familiares?
      - . O que estou querendo dizer  que essa deciso a respeito de estudar na Sua no  nada fcil pra mim. E creio que ele no entende isso, pois est sempre 
mudando de residncia e viaja muito. Ele no teria o menor problema em arrumar as malas e ficar fora um ano. J fez isso. Mas, pra mim,  uma situao tremendamente 
difcil.
      - Posso lhe fazer uma pergunta meio pessoal?
      - Claro!
      - Voc tem medo de seu namoro com ele ficar prejudicado se voc for estudar fora?
      - No sei. Creio que no acabaria, no. Ns j enfrentamos muitas outras barreiras. Mas um ano  muito tempo, e a gente muda.
      - Voc mudou quando Ted foi pra Espanha?
      - Mudei, creio que mudei.
      - E no entanto, quando se reencontraram, ainda se queriam um ao outro, no foi?
      - , foi.
      - O que vou dizer pode ser ingenuidade minha, prosseguiu Selena, remexendo-se um pouco na areia, mas j que vocs enfrentaram tantas lutas, que mal faz passar 
por mais uma provao? Quero dizer, o verdadeiro amor espera, no espera?
      Cris engoliu em seco e fez que sim.
      - , o verdadeiro amor espera, repetiu. Mas que no vai ser fcil, no vai mesmo!
      Selena olhou para a amiga, sorriu e disse em tom firme:
      - Na minha opinio, voc deve ir pra Sua, e os dois vo se corresponder, mandando uma carta por semana. Seria um maravilhoso romance! A, um dia, quando 
vocs j estiverem velhinhos, cabelo branco e sem dente nenhum na boca, vo poder se sentar numa cadeira de balano e mostrar as cartas para os bisnetos. Ento eles 
vo pegar as cartas e coloc-las num quadro.
      Cris caiu na gargalhada.
      - , Selena, voc sabe direitinho olhar tudo por um ngulo novo! disse ela.
      Selena riu tambm.
      - Imagine s, disse agora em tom mais srio. Se o Ted  mesmo o cara certo pra voc - o que nenhum de ns duvida - vai ter o resto da vida pra ficar ao lado 
dele. Mas talvez no tenha outra oportunidade de ir  Sua.
      - Sei que voc tem razo, comentou Cris.
      - Reconheo que isso no significa que vai ficar mais fcil passar um ano longe dele, nem que no sei o quanto isso ser difcil pra voc e como sentir falta 
dele. Mas pense s, Cris, Sua!
      E aqui Selena tentou imitar o canto tpico dos tiroleses, provocando outra risada na amiga.
      - Suas fantasias romnticas s tm um problema, interveio Cris.
      - Qual?
      - Nesses anos todos que conheo o Ted, ele nunca me escreveu uma linha!
      - Ento est mais do que na hora de comear a escrever! disse Selena.
      Contudo, ao dizer isso, a garota sentiu uma pontada de culpa no corao. Meses antes, Paul havia lhe escrito uma carta, e ela respondera num tom arrogante. 
Que  que ela entendia dessa questo? No sabia nada sobre namoro por correspondncia. Quem era ela para dar conselhos ao Ted e  Cris?
      - Sabe o que mais? concluiu Selena. No fique me escutando, no. Acho que voc deve  orar, e eu tambm vou orar. Ento, a orientao que Deus lhe der,  isso 
que voc deve fazer.
      Cris fez que sim.
      - Acho que  isso mesmo, replicou ela. No tenho a mnima idia sobre o que vai acontecer no prximo captulo da minha vida. S sei que quero que Deus o "escreva", 
com sua prpria caneta. Voc quer orar comigo agora?
      - Claro. Vamos, sim.
       Ento, sob um claro cu de agosto, Selena e Cris abaixaram a cabea e pediram a Deus, o Autor e Consumador da f, que com sua graa e soberania, escrevesse 
o captulo seguinte vida das duas.
      Acabando de orar, sentiram-se capacitadas a encarar os outros. Da levantaram-se e foram caminhando de volta para a casa de Bob e Marta.
      - Que bom que voc veio, Selena! exclamou Cris. Sinto-me bem mais leve agora. Ainda no sei que deciso vou tomar, mas me sinto muito melhor com relao ao 
problema. Tudo vai dar certo. Sempre d!
      Selena pensou em Amy.
      - Ser que tudo vai acabar certo pra ela tambm? Ou ser que a vida s d certo para aqueles que buscam a vontade de Deus, de todo o corao?
      Sabia, porm, que a outra amiga no estava buscando o Senhor. Se estivesse, no teria aquela facilidade para se envolver fisicamente com um rapaz que mal conhecia.
      Amy estava aceitando uma situao que no era o melhor que Deus tinha para ela. E Selena iria dizer-lhe isso. E Amy iria enxergar o fato dessa forma tambm 
e, assim que enxergasse mudaria de opinio com relao ao Nathan.
      

Captulo Nove
      
      Assim que as duas entraram em casa, Selena foi ligar para Amy. Novamente, caiu na secretria eletrnica. Dessa vez, porm, a garota deixou uma mensagem gravada. 
Disse:
       "Amy, tenho pensado muito naquilo que conversamos hoje de manh. E ainda tenho certeza de que estou com razo. Quero lhe dizer que nunca deve aceitar nada 
que no seja o melhor que Deus tem pra voc. Sabe a que me refiro, no ? Quando eu chegar, conversaremos mais. Tchau!"
      Desligou com o senso de que cumprira o dever. Agora posso me concentrar nos amigos daqui, pensou.
      Nesse momento, a campainha da porta soou. Algum foi abrir, e pelo barulho que vinha da entrada, Selena deduziu que sua amiga Katie Weldon chegara. Katie era 
uma ruivinha muito extrovertida e espirituosa. E j estava brincando com o Tio Bob.
      - Cuidado com essa mala a, senhor! Nela esto minhas nicas roupas boas, e j esto passadas, viu? Lembre-se disso, seno no receber gorjeta!
      Selena chegou  sala, e a amiga logo fitou-a com os olhos verdes brilhantes.
      - Selena! gritou Katie, correndo para dar-lhe um abrao. Quando voc chegou?
      - Algumas horas atrs, replicou Selena, sentindo o rosto "abafado" no ombro da outra.
      Os abraos de Katie eram sufocantes. S o Douglas dava abraos mais apertados do que os dela. Nesse momento, Selena compreendeu que naquele final de semana, 
com aqueles amigos, iria esgotar sua "quota" de abraos.
      - 'T bom, gente! exclamou Katie, olhando paraTed, Cris e Marta que chegavam. Vamos comear a nos divertir! Quem mais est aqui?
      - Somos s ns, informou o rapaz. Os outros esto na casa do Douglas. Est sabendo do ch-de-panela que vai haver pra Trcia hoje  noite?
      - Estou, respondeu ela. Meu presente est na mala. Ei, continuou ela, gritando para o Bob que estava no andar de cima. Tenha muito cuidado com essa mala, senhor! 
Tem uns presentes caros dentro dela.
      O tio de Cris apareceu no alto e entrou na brincadeira, aceitando o papel de camareiro.
      - Senhorita, quer que eu pendure seu vesturio? indagou.
      - No, obrigada! Mas pode me dizer como se pede o servio de quarto. Estou morrendo de fome!
      - Sempre est! resmungou Marta entre dentes.
      Selena percebeu que ela fora a nica que escutara aquilo. Quanto tempo seria que a tia de Cris vinha mantendo esse relacionamento de amor e dio com os amigos 
da sobrinha? Estava claro que ela no demonstrava muita simpatia por Katie, mas pela Tnia, sim. De certo modo, pensou Selena, isso era bom para a sua irm. Sendo 
de uma famlia grande, Tnia nunca recebera muita ateno de ningum. Selena achava que V May sempre demonstrara mais interesse por ela do que pela irm mais velha. 
Agora, esse carinho de Marta vinha equilibrar a situao. Finalmente, Tnia encontrara algum que extravasasse nela sua afeio.
      - A lasanha deve ficar pronta dentro de cinco minutos! anunciou Bob, descendo a escada e olhando para o relgio. Algum quer me ajudar a preparar uma salada?
      Todos se ofereceram como voluntrios e o grupo seguiu para a cozinha, com Katie falando sem parar. Selena recebeu a incumbncia de pr a mesa. Ted e Cris foram 
misturar a salada numa grande tigela, mas a todo instante Bob tirava da geladeira outros ingredientes para acrescentar a ela. Naquele mometo, Marta saiu despistadamente 
e foi para outro aposento da casa. Katie estava contando sobre seu novo trabalho, num balco do caf que ficava dentro de uma grande livraria.
      - Se todos quiserem, disse ela, posso fazer uns cappuccinos depois do jantar. Vocs ainda tm aquela mquina, no tm?
      - Est a nesse armrio que fica em cima do fogo, explicou Bob.
      Em seguida, ele colocou gelo em alguns copos e pegou latas de refrigerante na despensa.
      - Gosto muito de cappuccino, disse ele. Agora, acho melhor colocar esse po de alho no forno. Pode me ajudar, Selena?
      A garota pegou a longa bisnaga que ele lhe entregou e envolveu-a em papel-alumnio. Quando abriu a porta do forno para coloc-lo, o aroma da lasanha tomou 
conta do ambiente. Era de dar gua na boca. O molho de tomate na beirada da assadeira estava borbulhando.
      - Hummm! Que cheiro gostoso! exclamou Ted.
      O rapaz abriu uma lata de refrigerante e inclinou-se para dar uma olhada no jantar.
      - Foi o senhor que fez, Tio Bob? indagou.
      - Claro!
      - Tio, interveio Cris, o senhor precisa ensinar ao Ted essa receita secreta do molho de tomate. Na semana passada, ele fez um espaguete na casa do pai dele 
e ficou... bom... aqui ela se interrompeu dando um olhar carinhoso para o namorado, mas no terminou a sentena.
      - Foi desses molhos em conserva, explicou Ted, que no parecia nem um pouco sem graa com a crtica de Cris.  s assim que sei cozinhar!
      - O segredo est nos temperos, disse Bob. 
      A campainha soou novamente. Um minuto depois, Tnia e Jeremy entravam na cozinha. Jeremy era um rapaz de ombros largos e cabelo castanho-escuro. Tinha no rosto 
um sorriso amplo e estava com o brao em volta da namorada. Os dois formavam um belo par, pensou Selena, embora estivesse custando a acostumar-se com aquele cabelo 
acaju da irm.
      - Pelo cheiro, parece que chegamos ao lugar certo, comentou Jeremy. Oi, Selena! Como vai?
      Aproximou-se dela e lhe deu um abrao de lado.
      - Tnia disse que voc fez boa viagem. Que legal v-la aqui!
      - Legal v-lo tambm, Jeremy!
      O rapaz cumprimentou os outros presentes. Bob pegou mais dois pratos e colocou-os sobre a pilha que j estava na ponta da mesa, onde todos iriam servir-se 
 americana.
      - Vai vir mais algum? quis saber ele.
      - Acho que vo jantar na casa do Douglas, explicou Jeremy. Tnia falou que no haveria problema, que eu poderia vir, que uma pessoa a mais no iria atrapalhar.
      - Sempre temos comida demais, explicou Bob. Voc pode vir pra c sempre que quiser. Cad minha mulher? J vamos comear a jantar. Ted, voc me faz o favor 
de tirar a lasanha do forno para que ela esfrie um pouco? Vou procurar Marta.
      O rapaz atendeu, pegando a vasilha e colocando-a sobre o fogo. Selena tirou o po quentinho e Cris se apressou a fechar o forno. A turma toda foi logo fazendo 
uma fila para se servirem. Nesse momento, Bob voltou  cozinha.
      - Marta est ao telefone, disse ele. Daqui a pouco ela vem. Vamos orar?
      Ted deu a mo para Cris e abaixou a cabea. Jeremy pegou a de Tnia.
      - Vamos todos dar as mos, continuou Bob. Gosto de orar assim.
      Ele pegou a mo esquerda de Selena, e Cris, a direita. A seguir, o tio fez a orao mais "diferente" que a garota j tinha ouvido. Disse ele:
      "Deus, olhe para todos ns aqui. Foi voc que fez tudo. Foi voc que nos reuniu aqui e lhe dou graas por isso. Temos aqui a nossa comida. Foi voc, pela sua 
generosidade, que nos deu esse alimento. Agradecemos por ele tambm. Agora quero lhe pedir algo: que venha o seu reino e que a sua vontade seja feita na terra, de 
acordo com os planos que esto no cu. Isso seria maravilhoso! Peo tudo em nome Jesus Cristo."
      Selena permaneceu de olhos fechados, aguardando que ele dissesse "amm", mas ele no o fez. Todos soltaram as mos e se puseram a falar ao mesmo tempo. O ambiente 
ficou tomado por uma agradvel sensao de aconchego.
      Selena se sentia muito unida ao Ronny,  Amy e aos outros amigos da escola. Contudo o que experimentava ali agora era diferente. Parecia que a amizade e os 
relacionamentos de que desfrutava ali eram mais transparentes e descomplicados.
      - Est grudento! exclamou Katie para Ted, que lhe servia uma boa poro da massa fumegante.
      - Uma lasanha que se preze tem de ser grudenta, comentou Jeremy. Selena, traga logo seu prato aqui e se sirva antes do Ted. Esse cara come mais do que todo 
mundo.
      - Com exceo do Douglas, interveio Katie. Ningum come mais do que ele.
      -  mesmo, concordou Ted, dando uma olhada significativa para o Jeremy. Aquele Douglas... Como ser que ele est agora?
      - Agora ele est bem, respondeu o outro. Mas no sei como estar por volta da meia-noite.
      Os dois rapazes deram uma risadinha e se entreolharam com uma expresso de quem sabia de algo. Selena no tinha a menos idia sobre por que o Douglas,  meia-noite, 
estaria diferente do que estava naquele momento. O casamento ainda seria na sexta-feira, dali a dois dias.
      - Gente, disse Marta, voltando  cozinha e erguendo no alto alguns papis, tenho uma notcia maravilhosa! Meus vouchers na companhia area ainda esto vlidos. 
Marquei para domingo. J est tudo combinado!
      Todos se voltaram para ela e em seguida olharam uns para os outros, e finalmente para o Bob, aguardando uma explicao. O tio de Cris abanou a cabea. Ele, 
como os outros, no sabia nada sobre a notcia maravilhosa da mulher.
      - O que  que est combinando? quis saber Cris.
      - A viagem para a Sua, explicou Marta. Vamos viajar para a Sua.
      - Quem  que vai para a Sua? indagou Cris em tom apreensivo.
      - U, eu, voc e o Ted, naturalmente.
      Ted era o que parecia mais espantado.
      - O qu? perguntou ele. E quando  que vamos?
      - No domingo, replicou Marta. No escutou o que eu disse?
      - Neste domingo? falaram Ted e Cris ao mesmo tempo.
      - , neste domingo, confirmou a tia. Vou utilizar os trs ltimos vouchers que tinha, e pedi l na agncia de turismo para reservarem o hotel para ns. Ei, 
no fiquem assim to abalados. Vamos ficar l s uma semana.
      Ted fitou a namorada e em seguida virou-se para Marta.
      - S tem um pequeno problema a, disse ele.
      - Qual? indagou Marta.
      Com um gesto calmo, o rapaz enfiou a esptula na lasanha e, sem levantar os olhos, respondeu:
      - No vou poder ir.
      

Captulo Dez
      
      - Deixe de besteira! exclamou Marta.  claro que pode ir! Pensei em fazermos essa viagem para a Cris conhecer a escola e o orfanato. O mnimo que voc pode 
fazer, Ted Spencer,  ir com ela para lhe dar apoio moral e ajud-la a tomar essa deciso to difcil.
      O rapaz olhou para Marta. Selena teve a impresso de que ele ergueu um pouco o queixo, num gesto resoluto.
      - Cris pode tomar a deciso sozinha, sem que eu diga nada. Quem vai ajud-la a resolver essa questo  Deus, e no eu. No posso tirar mais folga do trabalho. 
J tirei o que podia para o casamento de Douglas.
      Marta parecia completamente perplexa.
      - Puxa, Ted, nunca esperei que voc fizesse isso!
      - Eu vou! disse Katie oferecendo-se.
      - timo! exclamou Marta em tom irado, batendo os trs comprovantes na mesa e erguendo as mos como quem se rende.  pra voc, Cristina. So trs lugares no 
vo de domingo de manh para a Sua. Faa com eles o que quiser. Talvez voc nem queira que eu v junto. Tudo bem. Isso  um presente que lhe dou.
      Em seguida, abaixando um pouco o tom de voz e controlando a irritao, ela continuou:
      - Entendi que est sendo muito difcil para voc tomar essa deciso. Lembrei-me de que eu ainda tinha esses trs vouchers na companhia area e achei que, se 
voc fosse l ver a escola, ficaria mais fcil se decidir. A voc poderia resolver se quer ir ou no.
      Cris colocou o prato na mesa e aproximou-se da tia. Deu-lhe um abrao carinhoso e um beijo no rosto. Selena sentiu grande admirao pela amiga. Tinha a impresso 
de que o mais certo seria dar um safano naquela mulher. Por que Marta no perguntara nada a ningum antes de ir tomando as providncias daquela maneira? E quanto 
ao Bob? Por que ela no o inclura no plano?
      - Muito obrigada, Tia Marta, falou Cris. Sei que a sennhora fez tudo com a melhor das intenes. Mas eu no preciso ir l. Est tudo bem comigo. Guarde esses 
comprovantes para a senhora fazer uma viagem com o Tio Bob.
      - No d mais, replicou a tia, fungando e dando uma olhada para o Ted. J os apliquei no vo de domingo. No vou mudar de idia. No existe nenhuma razo que 
a impea de ir no domingo, Cristina. Ento, a esto os comprovantes do voucher para as trs passagens. Um  para voc e os outros dois para quem voc quiser convidar. 
Se no quiser que eu v, no vou.
      - Sabe o que mais? disse Cris. Gostaria de pensar um pouco nisso tudo. Posso dar a resposta mais tarde?
      Com gestos lentos, Marta pegou os papis.
      - Creio que sim, disse. Ento, depois voc me fala o que resolveu. E quanto mais cedo melhor, hein?
      - O.k.! Obrigada, Tia Marta. Eu agradeo mesmo!
      Silenciosamente, os outros foram se dirigindo para a mesa da cozinha, cada um com seu prato na mo. Assim que se sentaram, o rumor da conversa foi pouco a 
pouco aumentando. Selena se sentou perto da irm e notou que Marta saiu do aposento ainda com uma expresso de mgoa. Na opinio da garota, Cris merecia uma medalha 
de ouro pelo modo como se conduzira naquela situao to desagradvel. Tinha certeza de que ela prpria no teria agido com tanta calma e sabedoria.
      O grupo ficou a comer e a conversar durante mais ou menos uma hora. Primeiro, consumiram a lasanha, o po de alho e a salada. Depois, se deliciaram com os 
cafs que Katie preparara com grande habilidade. A noitada continuou num ritmo agradvel at que, afinal, Tnia se deu conta de que o tempo estava passando, e era 
hora de irem para a casa de Trcia.
      Bob foi verificar se Marta j estava pronta. Katie dirigiu-se ao andar de cima para pegar seu presente. Cris foi com Ted para a sala, a fim de conversarem 
em particular. Tnia deu uma saidinha para ir ao banheiro. Com isso, s Selena e Jeremy restaram para tirar a mesa.
      - Como est indo de frias? indagou o rapaz.
      - Est passando muito depressa, comentou Selena.
      - Meu tio disse que vocs esto fazendo um trabalho extraordinrio com as crianas na Highland House. O pessoal est muito feliz com a ajuda de vocs.
      - Tenho gostado muito, disse a garota. E parece que a meninada tambm est gostando muito de tudo que fazemos com eles. Outro dia, duas garotinhas perguntaram 
quando  que vou contar outra histria da Bblia pra elas. Na primeira vez que estive l, foi bem diferente.
      - Paul me disse que nas primeiras vezes que vocs tentaram contar histria bblica no se saram to bem.
      Assim que o rapaz mencionou o nome do irmo, Selena percebeu que seu corao comeou a bater fortemente. Uns minutos antes, ela tivera vontade de perguntar 
por ele, mas no perguntara. Contudo, agora, ficou surpresa ao ver como seu corao batia s de ouvir o nome de Paul.
      - Acho que sim. Quero dizer, ele falou a verdade, concordou ela e, em seguida, colocando uma pilha de pratos sujos na pia e engolindo em seco, continuou: Co... 
como est seu irmo?
      Desde quando comecei a gaguejar? pensou. E por que disse "seu irmo"? Ser que  to difcil pra mim citar o nome de Paul? O que est acontecendo comigo afinal?
      - Meu irmo est indo muito bem, obrigado. Ele vai ficar muito alegre de saber que voc tambm est bem.
      Selena percebeu que Jeremy tinha os olhos fixos nela. Ser que queria ver se o rosto dela avermelhara? Manteve a cabea abaixada para que ele no enxergasse 
seu rosto. Lembrou-se de que, alguns meses atrs, antes de Paul viajar para a Esccia, Jeremy e Tnia haviam "armado" um esquema para que ela e o rapaz sassem juntos. 
Naquela noite, Paul havia deixado bem claro que no tinha interesse em Selena. Por que ser que Jerely estava querendo descobrir se havia algo da parte dela? Para 
curtir com a sua cara? No vou lhe dar esse prazer, decidiu.
      Ergueu a cabea e, jogando para trs o cabelo louro e rebelde, encarou Jeremy e indagou:
      - E voc? Como est indo de frias?
      O rapaz olhou-a hesitante, mas em seguida virou-se e foi tirar o resto dos pratos da mesa.
      - Muito bem, replicou ele. Principalmente com a Tnia aqui. Ela lhe contou sobre o meu amigo que comprou um barco  vela? J samos para passear nele algumas 
vezes. Tanto eu como ela adoramos velejar.
      - Hmmm! Que beleza! exclamou Selena.
      Nesse momento, Bob voltou  cozinha e disse:
      - Obrigado, Selena. Pode deixar que agora eu acabo.  melhor voc ir l ver as outras. Acho que j esto todas prontas pra ir.
      - Obrigada pelo jantar, Bob. Foi timo, disse ela sorrindo.
      Sentia que seu sorriso era um gesto de apoio para aquele homem. Ao que parecia, ele no recebia muito incentivo da prpria esposa.
      - Divirta-se bastante! falou ele para a garota que j saa para se juntar s outras.
      - Voc trouxe nosso presente? indagou Selena a Tnia.
      - Ttouxe; est no carro. Pessoal, vamos todas no meu carro, pois l no h muita vaga para estacionar.
      - Acho que no vai caber todo mundo, interveio Marta.
      Ela vestira uma pantalona e um bluso de seda multicolorido. Parecia que j se refizera da discusso com Cris e estava pronta para assumir o comando de outra 
situao.
      - Vamos no meu que  maior, concluiu ela.
      Ningum disse nada em contrrio. Tnia foi ao seu carro pegar o presente e voltou para onde estavam as outras. Entrou no banco de trs do luxuoso Lexus da 
tia de Cris, sentou-se e colocou o presente no colo.
      - O que voc comprou pra ela? quis saber Selena.
      - Voc vai ver! respondeu Tnia, dando uma risadinha leve.
      Selena no estava muito a fim de entrar na brincadeira da irmo, com todo aquele mistrio, e deixou por isso mesmo. A casa de Trcia ficava a poucos quarteires 
dali. Lentamente, Marta foi parando o carro perto da entrada da moradia e puxou o freio de mo.
      Entraram. Dentro da casa j havia umas seis mulheres. Ao fundo, ouvia-se uma msica instrumental, bem suave. Assim que Selena bateu os olhos na mesa arranjada 
para a festa, sentiu-se malvestida. O mvel estava recoberto com uma toalha de renda. Sobre ela, via-se um aparelho de ch, de prata, e algumas xcaras. No centro 
estava o bolo que Tnia levara ali poucas horas antes. Junto a este se via um arranjo com flores e velas, mais os talheres e os pratinhos de loua. A cobertura do 
bolo era de cor branca com detalhes de glac azul-claros. Foi enfeitada com flores de verdade.
      A me de Trcia achava-se junto  mesa usando um vestido leve, de vero. Selena deu uma olhada para a roupa que vestia: camiseta e short. At a Katie se arrumara 
melhor; usava uma blusa de algodo com um blazer por cima. Embora ela houvesse dobrado a ponta da manga, parecia bastante elegante. Selena se sentiu como um "garoto" 
que subira a uma rvore do quintal e cara no lado dos vizinhos, onde se realizava um ch chique.
      Saindo da sala despistadamente, onde as mulheres conversavam, ela foi ao banheiro que ficava no fundo do corredor. Deu uma olhada ao espelho e soltou um gemido.
      - , menina! falou, repreendendo a si mesma. Algum dia voc ter de crescer. Na prxima vez que for convidada para um ch-de-panela, pelo menos d um jeito 
de fazer um penteado.
      Correu os dedos pelo cabelo para desembara-lo, tentando ajeit-lo. Lavou o rosto e "escovou" os dentes com o dedo. Sacudiu a camiseta, na tentativa de desamarrot-la 
e, afinal, deu uma olhada geral em sua aparncia.
      - Por que no consigo ser como as outras? resmungou consigo mesma.
      Detestava aquela sensao incmoda.
      Qual ser meu estilo? minha imagem? pensou. Na semana passada, quando fui jantar com papai, fiquei toda incomodada por estar bem arrumada. Agora, estou me 
sentindo deslocada porque no estou bem vestida. Qual seria o meio termo? Quem ser que estou querendo imitar?
      Quando Selena voltou para a sala, onde agora j se encontravam umas vinte e cinco mulheres, disse a si mesma que estava querendo ser apenas "Selena", e isso 
bastava. No precisava mudar interiormente nem trocar de roupa.
      Nesse momento, deu com os olhos em Trcia, a "estrela" da noite. O rosto redondo da amiga estava exuberante. Usava um vestido leve, de algodo e, como enfeite, 
uma cruzinha de ouro. Seu cabelo estava bem curto. Parecia um pouco mais velha, em relao  Trcia que ela conhecera na Inglaterra. Seria o cabelo curto? Ou seria 
o fato de que dali a dois dias ela se tornaria uma senhora casada? Selena sentiu sua autoconfiana abalar-se. Teria sido melhor se houvesse ficado "na rvore".
      - Ol garota! disse Trcia alegre quando Selena se aproximou para cumpriment-la. Que bom que voc veio! Muito obrigada por ter vindo! Aceita uma xcara de 
ch? Reconheo que est meio quente pra se tomar ch, mas eu queria muito estrear meu novo bule de prata! Voc o viu? Ele pertenceu  minha av, mas ela nos deu, 
como presente de casamento. Venha aqui! Quero lhe apresentar para ela.
      Selena sabia que o que importava para Trcia era o interior dos outros, e no o exterior. Ela no se incomodava nem um pouco por Selena estar vestida de short 
e camiseta. Pensando assim, a garota conseguiu "calar" um pouco a voz da conscincia, que a taxava de "desmazelada" e "infantil".
      Trcia foi apresentando a amiga aos parentes, s amigas e e irms de igreja. Com isso, a garota ficou sabendo que aquele era o terceiro ch-de-panela que faziam 
para ela. As mulheres presentes ali no tinham podido estar no primeiro nem no segundo e, ento, organizaram mais esse. A av de Trcia lhe serviu uma xcara de 
ch, com as mos meio trmulas. A garota agradeceu-lhe e foi procurar um lugar para se sentar.
      Segurando com cuidado a delicada xcara de porcelana, deu uma olhada pela sala. Todos pareciam muito felizes pela Trcia.
      E devem estar mesmo, pensou ela, bebericando o ch. Trcia se guardor para o seu "prncipe", e veja s quem Deus lhe deu!
      Sentiu o ch aquec-la interiormente. Ou teria sido aquela sensao de paz e aconchego que experimentava ao observar Trcia, seus familiares e amigos festejando 
o acontecimento? Ao pensar nisso, conseguiu superar um pouco aquela insegurana que a incomodava.
       assim tambm que quero que acontea comigo, quando me casar, pensou. Quero V May servindo ch, e meus amigos rindo e me abraando. E quero estar igual  
Trcia. Ela est to bonita!
      Baixou os olhos para a xcara de porcelana em sua mo e viu que sua aliancinha de ouro estava refletindo a luz das velas que decoravam a mesa ali perto. A 
jia contrastava fortemente com as pulseiras de prata que usava no momento. E era mais ou menos assim que ela se sentia naquela sala - um objeto de prata cercado 
de vrios de ouro.
      

Captulo Onze
      
      Ento chegou o momento de a noiva abrir os presentes. Ela pegou uma caixa, tirou o carto e disse:
      - Este aqui  da Tnia e da Selena.
      Cuidadosamente, desatou a fita branca que envolvia a caixa e entregou-a para Cris, que se achava  sua direita. A amiga estava reunindo todos os laos num 
prato de papel, formando um enorme "buqu".
      - Quase que voc arrebentou esse a, brincou Katie.
      Ela havia dito, momentos antes, que cada fita que Trcia arrebentasse era um filho que iria ter. Disse ainda que "profetizava" que ela iria arrebentar nove 
fitas.
      - Arrebentei no, defendeu-se Trcia, removendo o papel que embrulhava a caixa, dando um sorriso para a me.
      Selena olhou para sua irm, que estava do outro lado da sala, e falando s com os lbios, perguntou:
      "O que ?"
      Tnia limitou-se a sorrir e fez um gesto de cabea indicando Trcia, dando a entender para Selena que olhasse para a noiva. Na caixa, estava impresso o nome 
da butique para a qual Tnia desfilava.
      Tomara que seja muito bom, pensou ela, pra valer a pena os 22 dlares que dei.
      Trcia abriu a caixa e afastou o papel de seda que envolvia o presente. Imediatamente, em seu rosto estampou-se uma expresso de surpresa e satisfao. Suas 
faces comearam a avermelhar-se.
      - Que lindo! exclamou ela, erguendo uma pea de roupa de um tecido branco, leve e transparente.
      Por todo o aposento, ouviu-se um coro de oh! e ah! Era um robe comprido, de seda fina. Na frente, era todo enfeitado de fitinhas brancas e pequeninas prolas.
      - Isso  s o robe, explicou Tnia, apontando para a caixa. Tem mais a!
      Trcia passou o robe para a prima dela que se achava sentada  sua esquerda.  medida que a noiva abria cada presente, a prima o anotava num papel, junto com 
o nome de quem o dera. Em seguida, Trcia retirou a outra pea da caixa. Era uma camisola transparente, curta e de alas.
      - Mas que linda! exclamou ela novamente.
      Ergueu a camisola muito elegante, mas bem reveladora. Todas as mulheres fizeram algum comentrio.
      Selena apertou os lbios e correu os olhos pela sala. As convidadas pareciam estar encantadas. Tnia se mostrava bastante satisfeita ao ver que Trcia gostara 
do que ela escolhera. Sorrindo, parecia dar a entender que ela prpria no se importaria de ganhar uma daquelas para sua lua-de-mel. Cris estava passando a mo no 
tecido e sorrindo para Trcia. A me da noiva admirou a camisola e cochichou com a av, dizendo-lhe que se tratava de um presente todo especial.
      - No sobra nada para a imaginao! brincou Katie.
      Todas as mulheres deram risada. Trcia estava encantada. Deu uma olhada para a me e um sorriso significativo. Em seguida, dobrou cuidadosamente as peas e 
guardou-as de volta na caixa.
      - Obrigada, meninas! disse ela, fitando Tnia e depois virando-se para Selena. Adorei, e acho que o Douglas tambm vai gostar.
      Novamente a risada geral. Uma das presentes disse:
      - Pode ter certeza disso!
      Selena sentiu vontade de chorar. Estava espantada com a reao. A princpio, ao ver o presente, ficara um pouco constrangida e at ligeiramente irritada com 
a irm. Ela comprara uma roupa to sensual e no lhe dissera do que se tratava. Agora, porm, tinha vontade de chorar. Era muito emocionante ver a amiga to empolgada 
com a lua-de-mel, demonstrando se nenhum constrangimento, que aguardava com ansiedade o momento de entregar o corpo ao marido, pela primeira vez.
      Engolindo em seco, Selena procurou controlar as lgrimas que haviam brotado em seus olhos. Compreendeu que aquele momento se tornara mais empolgante pelo fato 
de Douglas e Trcia serem puros. Eles no haviam nem se beijado ainda. O rapaz fizera o propsito de no beijar nenhuma garota enquanto no se casasse. S beijaria 
a prpria noiva, no momento em que estivessem no altar. E ele cumprira a promessa. Dali a dois dias, ento, estaria diante de Deus, e de muitas testemunhas, e prometeria 
dar-se a essa jovem, to importante para ele, pelo resto da vida.
      Novamente, Selena sentiu as lgrimas surgindo nos olhos. At esse momento, nunca beijara nenhum rapaz e, naquele instante, sentiu uma alegria intensa por isso. 
No sabia se iria esperar at o dia do casamento para beijar algum, mas tinha certeza de que, quando beijasse um rapaz, isso teria um enorme significado para ela. 
No seria meramente uma experincia corriqueira, num primeiro encontro, como, ao que parecia, era o caso de Amy com Nathan.
      Trcia abria outra caixa, na qual estavam um perfume e um leo para banho.
      - Obrigada, Helen! disse ela. Voc se lembrou, hein? continuou, dando uma cheirada no frasco. Adoro esta fragrncia!
      - Tem outro presente a com o mesmo papel, interveio Helen.  para o Douglas, mas voc pode abrir.
      Trcia puxou a fita e ela arrebentou.
      - A! exclamou Katie, fazendo danar seu cabelo ruivo e liso. Esse foi o primeiro. E logo no presente do Douglas. Isso significar que o primeiro filho vai 
ser menino.
      Trcia entregou a Cris a fita arrebentada e deu de ombros, num gesto engraadinho. Abriu a caixa e comeou a rir.
      - Ah, ele vai adorar isso! exclamou.
      - Achei que o Douglas no poderia ficar fora da brincadeira na banheira, continuou Helen.
      Trcia mostrou o presente - um vidro grande de sabonete lquido para banho, da marca "Mr. Sudsy" (Sr. Espumante),
      - Perfeito! comentou Katie. Agora seu primeiro filho pode se chamar "Espuminha".
      Todos riram, e Trcia entregou o presente a Cris para que esta o passasse adiante e todas pudessem v-lo.
      Transcorreram-se mais alguns minutos, e afinal a noiva acabou de abrir os embrulhos. Todos eram objetos de pessoal dela.* Ela ganhou mais quatro camisolas, 
dentre as quais uma preta e longa, dada por Tia Marta. O nico presente repetido foi um vidro de perfume, mas ela afirmou que usaria os dois.
      ___________________
      *Nos Estados Unidos, os presentes do ch-de-panela para uma noiva geralmente so objetos de uso pessoal dela. (N. da T.).
      
      Os presentes foram sendo passados pelo crculo, para que todas as mulheres os vissem de perto. Ao fundo, ouvia-se uma msica suave. Das velas acesas, desprendia-se 
um leve aroma de lrios. A a me de Trcia se levantou.
      - Antes de cortar o bolo, disse ela em voz alta para que todas prestassem ateno nela, quero dizer uma palavrinha.
      Selena viu que ela tinha na mo trmula um cartozinho com algumas anotaes. A garota se lembrou de seu pai no restaurante. Por que ser que era to difcil 
para os pais falarem aos filhos a respeito das questes mais profundas do corao?
      - Quando a Trcia nasceu, continuou a me, ela pesava apenas um quilo e oitocentos. Os pulmezinhos dela ainda no estavam bem desenvolvidos, e por isso ela 
teve de ficar no hospital mais trs semanas. Lembro-me de que uma noite fui at l e sentei perto dela, sentindo uma vontade enorme de tir-la da incubadora e peg-la 
no colo.
      O aposento estava em completo silncio. Todos escutando atentamente. No rosto de quase todos havia uma expresso de compaixo.
      - Lembro-me tambm do dia em que o mdico disse que ela j estava boa e poderia ir para casa, prosseguiu a me de Trcia, fitando a filha. E pensei: "Pronto! 
Chegou o momento que eu tanto esperava. Agora no vou mais largar minha filha!" Isso aconteceu pouco mais de vinte anos atrs. Hoje tenho de larg-la.
      As mulheres presentes, emocionadas, puseram-se a piscar para disfarar as lgrimas. Algumas pegaram um leno de papel.
      - Minha filha, falou ela ainda, quero lhe dizer algo para demonstrar o quanto a amo.  um poema que vi num livro e que expressa exatamente o que sinto agora. 
Chama-se "Pensamentos de uma me".
      Em seguida, ela pigarreou e se ps a ler o que estava escrito no carto.
      
Amo-a tanto, filha,
Que no tenho palavras
Para dizer o quanto estou feliz com voc.
Voc  to linda!
Muitas vezes, quando fito seus olhos,
 como se estivesse vendo um lago cristalino.
Vejo em voc reflexos do meu passado.
Voc v em mim projees do seu futuro?
Voc  exatamente como eu queria que fosse.
Eu no mudaria nada em voc.
Eu a amo muito, tanto que nem consigo compreender.
Amo-a mais at do que voc poderia desejar.
No existe nada neste mundo
Que eu no faria por voc,
Nada que no daria para t-la.
Voc  minha filha,
E sempre a amarei com um amor intenso e eterno,
Um amor que no sei colocar em palavras!
      
      Selena engoliu em seco e correu os olhos pela sala. Todo mundo estava chorando.
      - Trcia, levante-se um pouquinho, querida. Quero abeno-la.
      A garota se ps de p e a me aproximou-se dela. Eram mais ou menos da mesma altura. Com o cabelo curto, Trcia estava ainda mais parecida com a me. Esta 
colocou a mo ainda trmula sobre a cabea da jovem e, parafraseando Nmeros 6.24-26, disse:
      - Trcia, o Senhor te abenoe e te guarde. O Senhor faa resplandecer o rosto dele sobre ti e tenha misericrdia de ti. O Senhor sobre ti levante o seu rosto 
e te d a paz.
      As duas se entreolharam por alguns instantes, trocando entre si mensagens silenciosas, como s uma filha e uma me fazem. Em seguida, a me se inclinou, deu-lhe 
um beijo no rosto e cochichou algo no ouvido da filha que a fez sorrir. Neste momento, o telefone tocou e Katie se apressou a ir atend-lo.
      - Agora quero tirar um retrato de Trcia cortando o bolo, disse a me dela. Depois, ento, todos, por favor, venham se servir.
      A jovem se postou junto  mesa, com a faca prpria de cortar o bolo, e foi a que a Katie voltou correndo para a sala.
      - Trcia, vem atender o telefone.
      - Espere a, interveio a me. Primeiro, o retrato.
      Trcia sorriu e a me bateu a foto.
      - Anda depressa! gritou Katie. Venha s ouvir isto aqui!
      Selena ficou a observar atentamente as duas. Trcia pegou o fone, levou-o ao ouvido e cobriu a outra orelha com a mo.
      - Al! disse. ... ... No... Onde?... Espere a. Quem est falando? Al!
      Ela devolveu o aparelho para Katie. Todas as moas correram para junto dela.
      - O que foi que houve? quis saber Helen.
      Trpicia fechou os olhos abanando a cabea.
      - Eu sabia que isso ia acontecer, disse.
      - O qu?
      A jovem soltou um suspiro fundo e disse:
      - Tenho de ir l. Algum pode ir comigo? Os rapazes "seqestraram" o Douglas. Disseram que no vo solt-lo enquanto eu no for l v-lo.
      - E onde ele est? indagou a me dela, aproximando-se do grupo.
      - Eles o levaram para a balsa que faz a travessia para a Ilha Balboa e o acorrentaram nela, explicou Trcia. Pagaram o capito para navegar com ele a noite 
toda.
      - Ah, fez Cris. Ento no foi to ruim assim. Achei que eles iriam fazer alguma loucura.
      - Voc ainda no sabe do pior, continuou Trcia. Disseram que no vou conseguir reconhec-lo.
      - Por qu?
      - Creio que vestiram nele alguma fantasia.
      - O Jeremy no faria uma coisa dessas com o Douglas, comentou Tnia.
      - Pois pode acreditar que faria, interveio Katie. A voz ao telefone era igualzinha  do Jeremy.
      - Que tipo de fantasia ser que puseram nele? perguntou Selena.
      Trcia olhou para as amigas.
      - S vou saber quando chegar l, replicou. Mame..?
      - Vai, minha filha, disse a me. Tudo bem. Aqui, leve a mquina fotogrfica. Pode ir. A gente guarda um pedao de bolo pra voc.
      

Captulo Doze
      
      Selena entrou no banco traseiro do carro de Trcia, juntamente com Tnia e Cris. Na frente, iam Katie e outra moa, alm da motorista. Helen vinha seguindo-a, 
em seu prprio carro, com mais cinco garotas. Todo mundo no carro de Trcia falava ao mesmo tempo. Toda aquela pompa e formalidade da festinha acabara de repente.
      - Vou estacionar no lado de Newport Beach, anunciou Trcia. Vamos todas juntas para a balsa. Temos de ficar atentas com aqueles rapazes. Eu no me espantaria 
nem um pouco se eles jogassem bales cheios de gua em ns.
      - Voc acha que  uma armao? indagou Tnia.
      - , pode ser sim, interveio Katie. Eles podem estar armando alguma pra ns. Talvez nem tenham feito nada com o Douglas. Falaram que fizeram s pra obrig-la 
a vir aqui. Voc pensou nisso, Trcia?
      A jovem parou o carro em um semforo e olhou para a amiga.
      - No, mas pense s. Eles tm mais interesse em pregar uma pea no Douglas do que em mim. Contudo acho que deveramos ter trocado de roupa.
      - No dava tempo, no, comentou Katie. Seu "grande amor" estava em apuros, precisando de voc. Como  que voc ainda pensa em vestir uma roupa mais apropriada 
pra ir resgat-lo?
      -  que eu gosto muito deste vestido e pretendo lev-lo na lua-de-mel. No quero que aqueles "primatas" o estraguem.
      - Ei, espere a! protestou Cris. Voc est falando do meu "primata"!
      - E do meu! completou Tnia.
      - Se algum tem contas pra acertar com Douglas, ess algum sou eu, interveio Katie. Alis, eu deveria ficar do lado dos "primatas". Voc se lembra, Cris, daquela 
vez que fizemos aquele passeio de barco com sua tia, e ele me deixou com o olho roxo?
      - Foi sem querer, comentou Cris, recusando-se a tomar o partido da amiga.
      - Ah, quando  ele que faz algo,  sempre sem querer. Mas o Douglas j me meteu em vrias "frias".
      O sinal abriu e Trcia seguiu em frente.
      - Que tipo de fantasia ser que puseram nele? disse Tnia.
      - A que eles conseguiram achar, respondeu Trcia.
      - Ou que o dinheiro dava pra comprar, comentou Cris. Gisele me disse que na semana passada o Larry foi a umas lojas de fantasias. Mas ela no ficou sabendo 
que tipo ele estava procurando.
      - Essa  boa! exclamou Trcia. Pode ser at que o tenham vestido de primata! Coitado do Douglas, navegando naquela balsa a noite toda fantasiado de macaco! 
S espero que ele no perca o senso de humor.
      - Voc acha mesmo que ele est fantasiado de macaco? indagou Katie.
      - Sei l, respondeu Trcia. Conhecendo esses caras, pode ser at um saiote havaiano cheio de cocos pendurados.
      - Aposto que  a fantasia da "boneca de trapos",* disse Tnia.
      ___________________
      *No original, Raggedy Andy. Trata-se de uma figura tpica do folclore americano, que lembra ligeiramente a nossa "Emlia", de Monteiro Lobato. (N. da T.)
      
      Todas caram na gargalhada.
      - Por que voc acha isso? indagou Selena.
      - Porque o ex-colega de quarto do Jeremy tinha uma fantasia de boneca. Vi uma foto dele vestido com ela, numa festinha a que ele foi com a namorada. Aposto 
que a vestiram no Douglas.
      - Ele jogaria a peruca ruiva na gua, comentou Trcia.
      - Ei, o que h de errado com cabelo ruivo? perguntou Katie, sentindo-se insultada.
      - Com o cabelo ruivo, nada. O problema  a peruca. O Douglas detesta qualquer objeto na cabea. Ele quase nem usa chapu ou bon. Com uma peruca ento, ficaria 
maluco.
      Trcia virou uma esquina e entrou numa rua lateral. Com muita habilidade, estacionou numa vaga de 45. As garotas estavam to ansiosas, que comearam a sair 
do veculo antes mesmo que ela o desligasse. O carro que as estava seguindo estacionou no final do quarteiro, e as meninas vieram correndo para junto do grupo.
      - Algum trouxe dinheiro? indagou Trcia. Temos de pagar as passagens da balsa.
      Helen disse que tinha $20 dlares na bolsa. Dava para todas. Elas saram caminhando apressadamente, falando todas ao mesmo tempo.
      - Trouxe a mquina fotogrfica? quis saber Selena.
      - Trouxe. Est aqui. Gente, vamos ficar todas juntas e bem ao atentas com aqueles rapazes, hein! Eles so traioeiros.
      Dobraram a esquina e logo avistaram algumas pessoas esperando a prxima balsa, que alis j estava chegando. A ilha no ficava muito longe dali.
      - Algum est vendo algum dos rapazes? indagou Cris.
      - No, respondeu Katie. Devem estar na balsa.
      As garotas permaneceram todas juntas, olhando para os lados e falando sem parar. Selena fixou os olhos na embarcao que se aproximava. Quando estivera na 
Califrnia, no recesso de Pscoa, ela e alguns amigos haviam feito o passeio at a Ilha Balboa. Ainda se lembrava de que a balsa era bem pequena, cabia apenas uns 
quatro carros. A travessia levara cerca de quinze minutos.
      O mar estava muito escuro, mas l na ilha, no parque de diverses, principalmente na roda gigante, havia muita claridade. Assim que a balsa chegou mais perto, 
elas avistaram uma figura enorme, de cor amarelada, bem na frente na embarcao.
      - O que ser aquilo, Trcia? indagou Selena, batendo de leve no ombro da amiga.
      Todas se viraram na direo em que a garota apontava, fechando um pouco os olhos para enxergar melhor.
      - L vem ele de novo! exclamou um dos passageiros que aguardavam o embarque. Coitado! Ser que ele vai ter de rodar a a noite inteira?
      - Ouvi dizer, comentou outro homem que estava ao lado dele, que ele vai se casar neste final de semana. Parece que eles querem que a noiva dele venha aqui 
e prometa que no vai fugir na ltima hora.
      Todo mundo que estava por ali deu risada.
      - A noiva dele est aqui! exclamou Katie em voz alta para que todos ouvissem.
      Ento todos se voltaram para o grupo de moas e estas olharam para Trcia. A jovem deu um sorriso meio sem graa para os curiosos e em seguida voltou a fitar 
a balsa.
      - Se eu fosse voc, disse um dos homens, resolveria a situao logo enquanto ainda d tempo. Ouvi dizer que vo chamar a polcia.
      - Ah, no! falou Trcia em tom de consternao.  um frango!
      - No, Trcia! interveio Cris. Douglas  um cara muito corajoso quando est em situaes difceis. A polcia vai entender que tudo no passa de uma brincadeira.*
      ___________________
      *Na gria americana, a palavra "frango" (chicken) significa "medroso". Da a confuso de Cris. (N. da T.) 
      
      - No Cris, disse Selena, dando uma cutucada na amiga e apontando para a figura amarela que vinha na balsa. O Douglas est mesmo fantasiado de frango.  um 
frango amarelo! Olhe l!
      A balsa atracou, fazendo um barulho. O rapaz estava mesmo bem perto da proa, vestido com uma fantasia de frango, inclusive com uma "crista" na cabea. Selena 
pensou que aquilo devia estar incomodando-o muito. Ele avistou as garotas e logo se ps a agitar desesperadamente os braos, ou melhor, as asas.
      - Trcia! gritou ele. Aqui! Venha c! Depressa!
      As moas saltaram na balsa e correram em direo a ele, empurrando os passageiros que estavam  frente e dizendo: "Desculpe! Com licena!" Nenhum dos outros 
rapazes se achava  vista. A fantasia era bem feita, um amontoado de penas cor amarelo-vivo, lembrava mesmo um frango. Ele at poderia participar de um espetculo 
circense, se quisesse.
      - Tudo bem com voc? indagou Trcia, pegando a mo dele e tentando recuperar o flego.
      No tornozelo dele estava presa uma corrente, na ponta da qual havia uma bola de boliche.
      - Tire este negcio da minha cabea. Est preso nas costas, e com estas asas nos braos, no consigo soltar.
      Trcia logo se ps a mexer nas presilhas.
      - Ajuda aqui, gente, pediu.
      Tnia foi a primeira a atender, e Cris veio em seguida.
      - A passagem, pessoal, disse o cobrador no momento em que a embarcao arrancava, levando-os em direo  ilha. 
      Era um rapaz dali mesmo, da regio, um surfista queimado de sol, e de cabelo comprido que lhe caa nos olhos. No parecia nem um pouco perturbado com a presena 
daquele "'frango" a bordo.
      - Aqui, disse Helen. Eu pago!
      - Cad os rapazes? indagou Katie.
      - Fique bem quieto, Douglas, disse Tnia, remexendo na roupa. J estou conseguindo soltar. Incline a cabea pra frente pra tirarmos isso de voc.
      De bom grado, ele obedeceu, inclinando para baixo o enorme adereo com um longo bico alaranjado. Com dois minutos, Tnia conseguiu remover dele a monstruosa 
cabea. Douglas olhou para ela aliviado. Tinha o rosto bem avermelhado e todo molhado de suor.
      - Os caras esto l na ilha, esperando a gente, informou ele.
      - Ah, ? disse Katie. S quero ver a cara deles quando chegarmos l e eles virem que j o soltamos.
      - , falou Douglas. Mas eu no vou a lugar nenhum com essa bola de boliche amarrada no p.
      E virando-se para Trcia, tocou o rosto dela com a mo ainda recoberta de penas e disse:
      - Obrigado por ter vindo! Sinto muito se isso atrapalhou sua festa.
      - No se preocupe, replicou ela. Tudo bem com voc?
      Havia duas penas pequenas coladas no rosto dela.
      - Agora est, obrigado. Tinha uma hora que eu estava com esse negcio. J estava ficando agoniado, com claustrofobia. Que sensao boa  voltar a respirar 
o ar puro!
      - J tem uma hora que voc est rodando nesta balsa? indagou Trcia.
      - Sei l! A sensao  de que estou aqui h dias!
      - Como  que vai tirar esta bola e a corrente? quis saber Selena.
      Ela sabia que no agentaria ter algo apertando o tornozelo daquele jeito. Preferiria uma fantasia que lhe desse claustrofobia a uma bola de boliche atada 
a seu p, principalmente se estivesse numa embarcao.
        o Larry que sabe o segredo do cadeado, explicou Douglas. Ento  ele que tem de me tirar dessa balsa, a no ser que voc queira tentar descobri-lo.
      - Eu descubro, disse um homem que estava por perto.
      Era um dos passageiros curiosos, que tinham ficado a observar a cena. E antes mesmo que algum lhe desse permisso, ele se abaixou perto do p do Douglas e 
chegou o cadeado ao ouvido.
      - Silncio, pessoal! gritou ele, pondo-se a remexer na fechadura.
      Em menos de dois minutos, conseguiu abri-lo. Imediatamente, ouviram-se gritos de aplauso por parte das garotas e dos outros passageiros. Katie, que tinha ido 
com Helen para o outro lado da balsa, virou-se para o grupo, a fim de ver a razo dos gritos. Selena pensou em ir l ficar com as duas. Tambm queria ver a reao 
dos outros rapazes.
      -  o meu servio, explicou o homem, tirando os culos. Sou serralheiro e trabalho com fechaduras. Olha aqui um carto meu.
      - Quanto eu tenho de lhe pagar? indagou Douglas, retirando o p da corrente.
      - Nada, disse o homem. Fica como presente de casamento. S lhe peo que no deixe a noiva esperando no altar! concluiu ele.
      - Ah, isso no vai acontecer mesmo! exclamou o rapaz.
      Nesse momento, Selena notou que j estavam chegando  ilha. Os rapazes estavam l,  espera, sentados em cadeiras de praia, com uma caixa de isopor do lado 
e olhando-os de binculos. Ela logo avistou Larry, que se achava de p, com as mos em volta da boca, como quem usa um megafone.
      - Por que foi que o "frango" atravessou a baa? Gritou ele.
      - Hummm! resmungou Douglas. Que piada mais sem graa!
      Ele j havia aberto o zper da fantasia e retirava-a. Estava vestido de camiseta e short. Sua roupa achava-se empapada de suor.
      - Agora sou eu que vou fazer uma brincadeirinha com eles, disse o rapaz, abaixando-se e escondendo-se atrs de um dos carros que se encontravam na balsa. Tnia, 
prosseguiu ele, passando-lhe a fantasia, esconde isso por a.
      - Esconder? Onde?
      - Selena, quando eu der o sinal, jogue essa bola com a corrente na gua, o.k.?
      A garota pegou o pesado objeto. A balsa se aproximava da doca, e Douglas foi para um ponto do tombadilho onde havia uma sombra. Dando um sorriso, ele subiu 
 amurada.
      - Douglas, gritou Trcia correndo para ele, o que est fazendo?
      - Vou pregar neles a melhor pea de minha vida, cochichou ele para a noiva.
      

Captulo Treze
      
      A embarcao atracou. Assim que ela parou, Douglas gritou:
      - No agento mais isso!
      Em seguida, fez um pequeno aceno de cabea para Selena e saltou na gua, com os ps para baixo. A princpio, a garota ficou sem saber o que fazer, mas logo 
se lembrou do que ele lhe dissera e jogou a bola na gua, distante do ponto em que ele submergira. Trcia soltou um grito estridente e Larry berrou:
      - O que ele est fazendo? Est com uma bola de boliche no p!
      Imediatamente, Katie veio correndo para onde Selena e Trcia estavam.
      - Ningum vai fazer nada? gritou angustiada.
      E antes que algum pudesse segur-la, tirou o blazer e saltou sobre a amurada, caindo na gua.
      - No podem fazer isso! berrou o piloto da embarcao.
      O homem ergueu os braos irritado, ao ver Ted e Jeremy entrando na balsa, seguidos de perto por Larry e outros rapazes.
      - Est tudo bem! gritou Cris para eles.
      - Ele j tinha tirado a bola do p, explicou Selena.
      -  s uma brincadeira, concluiu Trcia.
      Ted saltou por sobre a amurada e foi nadando para o ponto onde Katie se encontrava.
      - No estou vendo o Douglas, disse a jovem em pnico.
      - Calma, est tudo bem, explicou-lhe Ted ao aproximar-se dela, procurando tranqiliz-la. Ele est s querendo nos pregar uma pea.
      -  mesmo? indagou ela, dando braadas e olhando ao redor.
      Do ponto onde Selena se encontrava, a gua tinha um aspecto horrvel. Achava-se suja de leo, que rebrilhava ao claro das lmpadas, formando crculos de luz 
ao redor de Ted e Katie.
      - Ento onde  que ele est? quis saber a garota, procurando nas proximidades de onde se encontrava.
      Ted deu um mergulho  procura do amigo e a moa continuou dando braadas para se manter  tona.
      - Ser que ele est do outro lado? gritou ela.
      Trcia e Cris correram para o outro lado da amurada e se puseram a correr os olhos pela gua, juntamente com dezenas de passageiros que ainda no haviam desembarcado.
      O capito ps a cabea para fora da cabine de comando e perguntou a Selena:
      - Ainda tem algum no mar? Eles no podem fazer isso!
      - Tem trs pessoas l, mas uma ainda no veio  tona, explicou a garota.
      - Pra mim chega! Vou chamar o socorro, disse ele, recolhendo-se  cabine.
      - Douglas! gritou Trcia. Douglas!
      - Ele est a? indagou Tnia com um tom apreensivo.
      Jeremy passara o brao em torno do ombro da namorada, e ambos corriam os olhos pela gua, de um lado e outro do barco.
      - Douglas, gritou Trcia de novo, essa brincadeira agora est ficando sem graa!
      - Estou aqui! gritou uma voz do lado em que Selena se encontrava.
      A garota olhou para a gua, mas no avistou ningum.
      - Trcia, ele est aqui! gritou ela.
      Imediatamente vrios passageiros correram para aquele lado da balsa.
      - O que voc est fazendo?! berrou Trcia para a gua escura. Onde voc est? No estou vendo!
      Ted veio  tona e Cris gritou para ele:
      - Ted, ele est bem. Est ali na gua!
      - Onde? indagou Katie, girando a cabea para um lado e outro.
      De repente, da lateral da balsa, veio a luz forte de um holofote, clareando toda a rea. A todos puderam ver o Ted, a Katie e, um pouco mais para o lado, 
o Douglas.
      - Pronto, pessoal! berrou o capito com um megafone, saiam todos da gua. Saiam agora! J chamei as autoridades. A brincadeira foi longe demais. Saiam j!
      Katie e Ted foram logo nadando em direo  margem, mas Douglas nem se mexeu. O capito fixou o claro em cima dele e gritou:
      - Saia da gua imediatamente, rapaz!
      - Bem que eu gostaria, principiou Douglas ao ver que uma grande "platia", uns na balsa e outros em terra, o observava. Em que... bom... eu... parece que perdi 
o short aqui na gua e... ah... 
      Foi uma gargalhada geral. Algum bateu uma foto. O serralheiro aproximou-se de Selena e disse:
      - Olhe aqui! Tenho um calo de banho na minha bolsa.
      Assim dizendo, ele abriu uma pequena sacola de ginstica que carregava e retirou dela um calo para o rapaz. Atirou a pea para ele e, debaixo dos olhares 
de todos, Douglas o pegou. Em seguida, deu um mergulho para vesti-lo.
      A essa altura, Ted e Katie j estavam chegando s pedras que havia junto s docas. De repente, a garota soltou um grito agudo. Selena teve a impresso de que 
a ouviu dizer:
      - Ai! Meu p!
      Contudo, por causa do barulho e da confuso reinantes, ela no tinha muita certeza disso. Em terra, havia uma fileira de carros querendo embarcar, buzinando 
fortemente. Atrs deles, ouviu-se a sirene de um veculo de polcia que desejava passar. Ao mesmo tempo, a multido "zoava" o Douglas que nesse momento nadava em 
direo  margem.
      - Vamos embora, gente, falou Tnia. Vamos dar o fora daqui.
      E ela e Jeremy foram saindo, seguidos de Selena, Trcia e Cris. Os outros rapazes do grupo e mais trs moas j haviam desembarcado. Achavam-se perto das pedras, 
onde o Ted tentava ajudar Katie a subir para a margem plana.
      Assim que Selena chegou perto deles, percebeu que Katie estava sentindo muita dor. Ela se achava deitada de lado, ensopada, tremendo e segurando o tornozelo.
      - Procure ficar quieta, orientou Ted, tambm todo molhado, inclinando-se para ela.
      - O que aconteceu? perguntou Cris, falando aos berros por causa do rudo da sirene que agora j se achava bem junto deles.
      - Ela prendeu o p nas pedras, explicou o rapaz, atirando o cabelo para trs, com um gesto tpico de surfista, e respingando gua em todo mundo.
      - Torci o p, disse a garota entre gemidos. Ai! Est doendo demais!
      Nesse momento, Selena percebeu que o veculo que chegara tocando a sirene no era um carro de polcia, mas uma ambulncia. Larry fez um aceno para os socorristas 
e gritou:
      -  aqui!
      Mais curiosos se aproximaram no instante em que um socorrista se abaixou junto de Katie e passou a fazer-lhe perguntas. Douglas, que finalmente sara da gua 
so e salvo, achava-se de p ao lado de Ted, usando o calo emprestado. Percebia-se que a pea era bem pequena para ele. Cris e Trcia foram para junto dos namorados, 
mas Selena ficou um pouco mais afastada, junto com Tnia, Jeremy e outros amigos.
      - Isso acabou virando uma confuso, comentou Tnia, que ainda tinha nas mos a enorme fantasia de frango.
      - Acho melhor irmos para a casa de Douglas, sugeriu Jeremy. Ou vocs esto pensando em retornar  casa de Trcia?
      - Se a Katie no tiver nada grave, devemos voltar para a de Trcia, replicou a jovem.
      Uma das garotas do grupo aproximou-se mais da aglomerao que se formara em volta de Katie e retornou dizendo que os socorristas haviam decidido levar a jovem 
para o hospital. Achavtam que talvez o p dela estivesse quebrado.
      - Ah, no! exclamou Selena. Ela no ia participar da cerimnia de casamento?
       No, respondeu Tnia. A dama de honra  a Cris.* Acho que a Katie est responsvel  pelo livro de assinatura dos convidados.
      ___________________
    *Nos Estados Unidos, as damas do casamento so as amigas da noiva, e no crianas pequenas. (N. da T.)
      
      Talvez ela tenha de ficar de muletas, comentou Selena.
      - E vai logo arranjar um jeito de pr a culpa no Douglas, disse Helen.
      - Bom, interveio Tnia, procurando defender Katie, se ele no tivesse pulado na gua... Ela s saltou l porque estava preocupada com ele. Obviamente, ela 
no sabia que ele havia tirado a bola do p.
      Ah, isso no interessa no, falou Jeremy. Por que  que a culpa tem de ser do Douglas? Katie no precisava pular no mar, querendo bancar a herona. Por que 
ela tinha de pensar que era ela que precisava salv-lo?
      - Mas esse  o jeito dela, gente, disse Selena, tentando pr fim  pequena discusso que se iniciara entre Jeremy e a irm. O Ted tambm  assim. Esses dois, 
quando vem um problema grave, agem impulsivamente e s depois  que param pra pensar.
      - Sabe o que acho? comeou Tnia. Foi o Douglas que agiu sem pensar. Essa brincadeira dele foi de muito mau gosto. Trcia quase morreu de susto. Aposto que 
est furiosa com ele.
      Tnia tinha razo. A garota estava mesmo furiosa.
      Katie foi para o hospital acompanhada por Ted e Cris. O resto do grupo dirigiu-se para a casa de Trcia. E ela, que sempre era muito doce, nessa hora tinha 
uma expresso fortemente irada. A me dela convidou a todos para entrarem e comerem um pedao de bolo. Trcia foi a nica que no quis comer.
      Douglas tambm parecia preocupado com o incidente. Ficava s olhando para a noiva, procurando no rosto dela algum sinal de que estava mais calma.
      - Acho que aquele serralheiro era um anjo, disse Helen para o rapaz. Quero dizer, no  toda hora que a gente encontra um cara que sabe abrir um cadeado e 
ainda por cima tem um calo de banho na sacola.
      - Que idia mais ridcula! exclamou Marta. Que absurdo achar que Deus iria mandar um anjo para resolver um problema que ns mesmos arranjamos!
      Imediatamente, Douglas concordou com ela.
      - , foi uma loucura mesmo, disse ele. Vou dizer algo diante de todos aqui, falou, dando uma olhada para Trcia, com um sorriso sincero. Hoje aprendi uma dura 
lio. No quero mais saber dessas brincadeiras. No tem graa nenhuma quando algum sai machucado. Ou leva um susto muito grande... concluiu.
      - No tem mesmo, repetiu Marta. Eu j vou pra casa. Algum vai comigo?
      Selena deu uma olhada  sua volta. Do grupo que viera para a festa no carro de Marta, ela era a nica que estava ali. Katie e Cris ainda se encontravam no 
hospital. Tnia e Jeremy j haviam ido embora, pois teriam de ir para mais longe.
      - Acho que eu vou, disse ela.
      Durante todo o trajeto, Marta foi expressando sua preocupao e frustrao com as loucuras dos amigos de Cris.
      - Esse pessoal precisa crescer, falou. Voc ainda  nova por aqui, Selena, e no conhece essa turma como eu. Faz anos que conheo esses rapazes.  simplesmente 
ridculo o jeito como eles agem. Aprontam como se fossem adolescentes. Ainda bem que o Robert no veio. Tenho certeza de que o bobo do meu marido teria entrado na 
brincadeira junto com eles.
      A essa altura, chegavam em casa, e Marta apertou o boto do controle remoto para abrir o porto.
      - Isso vem demonstrar ainda mais que eu tenho razo no que estou pensando. Cris deve ir estudar na Europa e afastar-se do Ted, seno ele no vai amadurecer 
nunca. Aquele rapaz no tem um pingo de responsabilidade.
      Selena se lembrou de que Ted recusara o convite para viajar  Suia porque no poderia mais tirar folga no trabalho. Em sua opinio, isso demonstrava muito 
senso de responsabilidade.
      - No existe nenhuma razo para ela no ir estudar nessa escola, prosseguiu Marta. No consigo entender por que ela vai perder essa oportunidade, s para ficar 
por aqui, na companhia desses amigos.
      - A senhora no gosta do Ted? indagou Selena na hora em que a outra desligava o carro.
      - Claro que gosto! exclamou Marta com expresso de espanto no rosto. Gostamos dele como se fosse nosso filho! Como  que voc pode pensar uma coisa dessas?
      Selena deu de ombros.
      - Estou preocupada  com Cristina, continuou a tia. Ela no  o tipo de jovem que deveria se casar muito nova. Ela est tendo uma chance de conhecer o mundo. 
Se no aproveitar agora, mais tarde vai se arrepender muitssimo.
      Selena no conseguia entender por que fora que Marta chegara a essa concluso. Quantos anos teria ela quando havia se casado com Bob? Entretanto achou melhor 
no dizer nada, ento concentrou-se em manter a boca fechada, enquanto entravam em casa.
      Em cima da mesa da cozinha, encontraram um bilhete de Bob dizendo que Ted lhe ligara e que ele fora para o hospital.
      - Ah, fez Marta. Quando ser que vo voltar? Sabe o que mais? Vou me deitar. Selena, por favor, fique  vontade.
      - Obrigada, replicou a garota. Boa-noite!
      - E foi uma noite e tanto! resmungou a tia de Cris. Vou ficar muito espantada se aqueles dois conseguirem mesmo chegar ao altar!
      Selena no conseguiu entender bem se ela estava se referindo a Douglas e Trcia ou a Ted e Cris.
      

Captulo Quatorze
      
      O dia seguinte passou voando, cheio de muita agitao. Katie e Cris haviam chegado do hospital muito tarde, e Selena j estava dormindo. Pela manh, Katie 
mostrou o gesso que tinha no p e pediu  amiga para assinar nele. Apesar de tudo que passara na noite anterior, a garota no perdera o bom humor.
      O telefone tocou a manh inteira. Eram os amigos querendo saber notcias da acidentada. E, obviamente, cada um dava sua prpria verso do episdio. Helen lhes 
disse que a notcia sara no jornal. Imediatamente, Cris e Selena desceram a escada correndo para procurar o relato, e Katie veio atrs delas manquitolando.
      O artigo estava na segunda pgina, onde se encontravam as notcias locais. Continha um total de nove linhas, descrevendo a brincadeira que alguns universitrios 
haviam feito a um amigo que estava para se casar. Por ltimo, vinha a concluso:
      "O delegado Sanders advertiu que tais atividades podem acabar sendo muito perigosas. Isso ficou comprovado pelo fato de um dos participantes ter sido levado 
para o hospital com uma perna quebrada."
      - P quebrado, interveio Katie, corrigindo Cris, que lia o relato em voz alta para os outros. Vou ligar pra eles e dizer que quebrei foi o p, e no a perna.
      Antes, porm, que ela pudesse cumprir sua ameaa, o telefone tocou. Bob pegou-o e foi para o outro aposento. As trs moas ainda estavam de camisola, quando, 
a certa altura, Selena se deu conta da hora.
      - Gente,  quase meio-dia! disse. Acho que deveramos trocar de roupa!
      - J  isso tudo? indagou Cris. Tenho de estar na igreja s 4:00h para o ensaio. As 6:00h, vai haver um jantar para os parentes dos noivos e para os padrinhos. 
Ainda no resolvi que roupa vou usar, e tenho de ligar pra casa.
      Pouco depois, Cris foi para o telefone e ficou quase uma hora conversando com os pais sobre a viagem  Sua, programada pela Tia Marta. Isso deixou a jovem 
ainda mais estressada. Ela pediu a Selena que passasse uma blusa para ela, enquanto tomava banho.
      Katie no parou quieta. Ficava andando de um lado para o outro com sua muleta. Contudo parecia ter perdido um pouco da agilidade. O gesso ia do p at ao joelho; 
e parecia bastante incmodo. Era provvel tambm que ela ainda estivesse "digerindo" o desconforto de haver quebrado o p.
      Marta vagava pela casa, preocupada com tudo que dizia respeito a todo mundo. Ser que o Ted j fora buscar o smoking? Ser que deveriam ligar para a me de 
Trcia para ver se ela precisava de ajuda com os ltimos detalhes do casamento?
      Selena acabou de passar a blusa e subiu para o quarto de hspedes, onde pendurou a pea no armrio. Marta veio atrs dela. Katie finalmente se deitara na cama 
e apoiara o p sobre uma pilha de travesseiros.
      - E o Douglas? continuou Marta, com sua interminvel preocupao. No seria bom o Bob ligar para ele, para lembr-lo de pegar as alianas na joalheria? E a 
certido de casamento? O Ted e a Cris vo ter de assin-la como testemunhas. Ser que Douglas vai lembrar-se de lev-la  igreja?
      Por fim, a tia de Cris saiu do quarto, deixando as trs jovens sozinhas.  que se lembrara de que no ligara para a loja onde comprara o presente de casamento, 
para recomendar-lhes que o entregassem na casa da noiva.
      - Eu no quero festa no meu casamento. Se eu mudar de idia, lembrem-me disso, comentou Cris, enxugando o longo cabelo castanho-claro.
      - Voc vai querer que a gente comece a lembr-la disso imediatamente? quis saber Katie.
      - No, respondeu a jovem, entrando no banheiro e ligando o secador de cabelo.
      Katie e Selena se entreolharam.
      - No dou seis meses pra eles se casarem, afirmou Katie.
      - E se ela for pra Sua? interps Selena.
      - Ela no vai, no, replicou a outra. Voc iria?
      - Na mesma hora, respondeu a garota.
      - Eu tambm, continuou Katie, mas Cris no vai, no. Ela no tem esse esprito de aventura que eu e voc temos.
      - Eu escutei, viu? gritou Cris, desligando o secador. E querem saber o que mais? Acho que vou, sim.
      - Vai? indagaram as duas ao mesmo tempo.
      Cris voltou para o quarto.
      - Acho que, na semana que vem, vou com minha tia pra ver como  tudo l. Chamei minha me pra ir conosco, e ela disse que vai conversar com papai primeiro. 
Amanh eles viro para o casamento e a vo me dar a resposta. Se mame resolver ir, a eu vou.
      - Ah, que pena! exclamou Katie. Queria ir com voc!
      - Ah, fez Cris em tom de ironia, voc iria se divertir muito passeando pela Europa de muletas!
      - Por que no? Pior era aquela garota do filme Heidi. Como era mesmo o nome dela? A que era rica e morava na cidade? Ela se virava bem nos Alpes apesar de 
estar numa cadeira de rodas.
      - , interveio Cris rindo, mas ela contava com a Heidi e o av da menina para empurrarem a cadeira. Voc s teria eu e a Tia Marta.
      Nesse momento, a porta do quarto se abriu de repente e a tia de Cris entrou abruptamente. O rosto dela estava vermelho. Selena pensou se ela devia ter um radar 
mental embutido para descobrir quando algum estava fazendo piadinhas com o nome dela.
      - Cancelei meu carto naquela loja! anunciou Marta. Eu havia pedido dois jogos de jantar para Douglas e Trcia. Eles me informaram que entregaram tudo, e que 
ficaram faltando apenas as saladeiras.
      Selena e Katie se entreolharam. Aquilo no lhes parecia nenhuma tragdia.
      - Agora h pouco, me ligaram e disseram que descobriram que tinham as saladeiras no estoque, se eu queria ir l pessoalmente peg-las. Isso significa que, 
se eu quiser que os noivo recebam o jogo completo, tenho de ir l pegar. Alguma de vocs pode ir comigo?
      Novamente Selena e Katie se entreolharam. Em seguida, Selena virou-se para Cris, que tambm a fitou.
      - Preciso acabar de me aprontar para o ensaio, explicou esta. Tenho de sair dentro de uns cinqenta minutos.
      - Meu p est muito dolorido, comentou Katie.
      Selena sentiu um aperto na boca do estmago. Como no se sentia muito  vontade na companhia de Marta, no tinha o menor desejo de ir com ela. E ainda mais 
para desempenhar uma tarefa to desagradvel! Pensou que, se o casamento de Douglas e Trcia fosse parecido com o do seu irmo Cody, os noivos s iriam ter tempo 
para abrir os presentes depois que voltassem da lua-de-mel. Tinha certeza de que nem dariam pela falta das saladeiras agora.
      - A senhora no pode pedir  loja para entregar? sugeriu ela em tom calmo. Quero dizer, eles no entregaram o resto da loua na casa da Trcia? Eles podem 
levar as saladeiras tambm. Se no mandarem hoje, amanh ainda d tempo.
      - Isso mesmo, concordou Katie. E diz pra eles fazerem embrulho de presente.
      Marta pensou um pouco e logo em seguida desfez a expresso de tenso que tinha no rosto.
      - , voc tem razo. Por que tenho de ir l pegar o jogo de saladeiras? Foram eles que cometeram o erro, e no eu. Vou ligar pra eles agora e dizer-lhes exatamente 
isso, concluiu ela, saindo do quarto em passadas rpidas.
      As garotas ficaram a olhar umas para as outras.
      - ! principiou Katie, apoiando as mos sob a nuca. Como eu estava dizendo, espero que voc e sua me passem momentos bem agradveis nos Alpes, com a Tia Marta. 
Nem eu nem Selena iramos agentar isso direto e reto, durante uma semana, por dinheiro nenhum.
      - Sei no, interveio Selena, por um bom dinheiro eu acho que iria...
      - Ah, deixem disso! exclamou Cris.
      Nesse momento, o Tio Bob enfiou a cabea pela porta que se achava aberta.
      - Todo mundo vestido? Posso entrar?
      - Pode.
      - Cris, o Ted chegou.
      - J? Ns s vamos sair daqui a mais ou menos uma hora!
      - Bom, parece que ele ainda no comprou o presente de casamento, e quer que voc v com ele, antes do ensaio, para ajud-lo a escolher.
      Katie comeou a rir.
      - Fala com ele pra aproveitar que a Marta est telefonando e quem sabe ele pode encomendar um lindo jogo de saladeiras. Ou talvez a sopeira, se ningum deu 
uma ainda.
      - Pare de brincar, Katie, disse Cris. Tio Bob, por favor, diga ao Ted que vou descer daqui a uns quinze minutos, mas no vai dar pra comprar o presente hoje. 
Vamos ter de fazer isso amanh de manh.
      - Pois no! exclamou o tio, fazendo uma curvatura e imitando um pomposo mordomo.
      - Ah, espere a. Com que roupa que o Ted est?
      - Com o traje prprio de um praiano, explicou ele.
      - Era o que eu pensava, disse a jovem. O senhor pode dizer a ele, por favor, que hoje temos de estar com roupa social? Talvez seja melhor ele ir em casa e 
se trocar.
      - Como queira, respondeu Bob, saindo e fechando a porta.
      - Ser que ele nunca foi a um casamento? Deve ter ido, resmungou Cris.
      Ela se inclinou para a frente, deixando o cabelo tombar para diante de forma que a ponta dele quase tocava o cho. Em seguida, ps-se a escov-lo vigorosamente 
a partir da nuca.
      - No acredito que ele tenha pensado que poderia ir de short, camiseta e sandlia de dedo! comentou ela.
      - Voc tem certeza de que esse ensaio  com roupa social? indagou Katie. O do meu irmo foi bem informal.
      Contudo, antes que Cris e Selena tivessem tempo de abrir a boca para responder ou comentar, a prpria Katie prosseguiu:
      - , mas ele se casou num parque, l em Reno. E o ensaio foi num hotel pequeno.
      Selena disparou a rir.
      - Est falando srio? indagou ela.
      Katie fez que sim, mas no disse mais nada. Selena entendeu que o assunto no era para rir.
      Bob bateu  porta de novo e entrou.
      - Misso cumprida, anunciou ele. Ted foi em casa e disse que deve estar de volta daqui a uns quarenta e cinco minutos, de terno e gravata.
      - De terno? repetiu Cris. Pra mim j est bom se ele vestir uma cala social e uma camisa social limpa. Isso  pedir muito, gente? concluiu ela, virando-se 
para as amigas.
      Nenhuma das duas deu resposta. Bob saiu e Cris passou a ocupar-se com a maquiagem, enquanto Selena e Katie conversavam sobre o tipo de roupa que Cris deveria 
usar nessa noite. Finalmente concordaram que ela deveria ir com uma saia curta e com outra blusa, no a que Selena passara. Era um conjunto bsico elegante e combinaria 
bem com o que Ted usasse, fosse informal ou social.
      Selena admirou-se com a calma com que Cris reagiu diante de tantos eventos que lhe tinham sobrevindo naquela tarde. Naquele momento, quando a jovem se aproximava 
mais do espelho para aplicar o rmel nos clios, era a prpria imagem da paz e da tranqilidade. Selena gostaria de ser assim. Queria ter aquele ar de felicidade 
e autocontrole que no era apenas superficial, mas profundo.
      - O que vocs duas vo fazer  noite? indagou Cris.
      - Acho que vamos dar umas voltas de roller, respondeu Katie brincando. Depois iremos fazer cooper na praia. E depois vamos jogar bola na rua com os meninos 
daqui. Entendeu, n? O de sempre!
      Cris riu.
      - O.k., disse. Seja o que for que fizerem, divirtam-se!
      Em seguida, saiu rapidamente porta afora, deixando no ar o leve perfume de flor de ma do fixador.
      - E a? O que voc quer fazer? indagou Selena a Katie.
      - Sei l. O que voc gostaria?
      Selena riu.
      - Sabe o que mais? Ns duas estamos patticas.
      - No! No estamos, no! Vamos ver se convencemos o Bob a nos levar a algum lugar.
      - timo! Aonde?
      - Qualquer lugar. De preferncia onde no haja discriminao contra ruivas de muletas.
      Selena caiu na risada.
      - Vamos l! disse. Vamos as duas conversar com ele. Tenho a ligeira impresso de que voc tem mais experincia nisso do que eu.
      - Isso mesmo! replicou Katie, pegando a muleta. Vamos l Selena. Vou ensin-la a praticar a difcil arte da persuaso. Nossa vtima  o "pobre" Tio Bob, que 
no suspeita de nada.
      

Captulo Quinze
      
      Selena virou-se de lado e puxou a coberta at o queixo. Remexeu os ps, procurando sentir-se mais confortvel. O quarto de hspedes estava em profundo silncio, 
quebrado apenas pelo leve ressonar de Katie.
      Passava de meia-noite, mas Cris ainda no regressara. Selena se via como uma "galinha choca", toda preocupada com a amiga. Ser que ela estava com Ted? Ser 
que estavam conversando a respeito da deciso que ela teria de tomar sobre a escola da Sua? Ou ser que o pessoal que participaria da cerimnia de casamento estava 
pregando mais algumas peas em Douglas e Trcia?
      A noite para Katie e Selena fora meio sem graa. Haviam sado para jantar com Bob e Marta e depois voltado para casa para assistir  televiso. Ao que parecia, 
a "difcil arte da persuaso", em Katie, ainda estava engatinhando, quando tinha de aplicar-se a Bob. Obviamente, ele era mais influenciado por Marta, que ainda 
se mostrava preocupada com os detalhes do casamento. A tia de Cris passara boa parte da noite pensando em questes relacionadas com a festa, simplesmente pela razo 
de que era possvel que ningum houvesse pensado nelas. Ela chegara ao ponto de indagar se o ar condicionado no salo de recepo seria ligado, para que o bolo da 
noiva no ficasse mole demais e murchasse.
      As duas garotas tinham subido para se deitar por volta de 11:00h, mas como haviam acordado tarde nesse dia, agora Selena no conseguia dormir. Ficou pensando 
na Amy e imaginando o que poderia estar acontecendo entre ela e Nathan. Sua esperana era de que a amiga tivesse ouvido o recado que deixara gravado e compreendido 
a mensagem que ela lhe passara.
      O que mais preocupava Selena era o fato de que os pais de Amy estavam tendo conflitos. Com isso, a filha se sentia mais carente de amor e ateno. Selena tinha 
esperana de que Amy no abrisse mo de seus princpios no relacionamento com um rapaz como Nathan, apenas para suprir sua carncia afetiva.
      Afinal, Selena ouviu passadas leves subindo a escada. A porta abriu-se e Cris entrou no quarto p ante p.
      - Oi! disse ela, cochichando. Estou acordada! Katie est dormindo, mas creio que no vai acordar. Como foi tudo la?
      Seguindo o claro da lampadazinha noturna,* Cris se aproximou da cama de Selena e se sentou na beirada.
      ___________________
      *Uma pequena lmpada de quatro watts, que se liga numa tomada baixa, rente ao cho, e que permanece acesa durante a noite, para que o quarto no tique totalmente 
s escuras. (N. da T.).
      
      - Foi tudo bem, respondeu. Acho que amanh tudo vai correr muito tranqilo. Houve um momento muito interessante no ensaio. Foi no fim, quando o pastor diz: 
"Agora voc j pode beijar a noiva". O Douglas tomou a Trcia nos braos, e eu pensei que ele iria beij-la. Mas ele apenas olhou para ela com o rosto a um centmetro 
do dela. Selena, foi a cena mais emocionante do mundo, dessas de fazer a gente derreter por dentro. A ele cochichou pra ela: "Amanh, meu amor; amanh!"
      Selena sorriu, em meio  escurido do quarto.
      - Essa questo de s dar o primeiro beijo depois de casado  muito importante para o Douglas, n?
      - , importante pra todos ns, creio, replicou Cris. Douglas  uma espcie de smbolo de pureza pra todo o grupo. Acho que, se ele tivesse beijado a Trcia 
hoje, eu teria ficado com raiva dele. Haviam chegado to perto de cumprir o propsito e agora perderiam por pouco...
      - Cris, principiou Selena, falando devagar, voc acha estranho ver os dois se casando, sendo que voc namorou o Douglas?
      - De jeito nenhum, respondeu a jovem. Alis, de certo modo, pra mim foi como se no o tivesse namorado. Quero dizer, ele era mais um amigo do que namorado. 
A gente saa muito em grupo. Sei que ele gostava de estar em minha companhia, mas entre ns nunca houve aquele negcio de ver "estrelinhas douradas".
      - Estrelinhas douradas?
      Cris soltou uma risadinha suave.
      - No sei que nome posso dar a isso. s vezes, quando olho para o Ted, tenho a impresso de que Deus derramou umas estrelinhas douradas no ar, entre ns. S 
ns as vemos, mais ningum.  algo que nos une fortemente. Sei que entre o Douglas e a Trcia tambm h isso. Eles vo ser muito felizes.
      - Quer dizer, ento, que a raiva que Trcia teve do Douglas ontem j passou?
      - Acho que sim. Ela ficou com muita raiva dele, sim. Mas hoje ele falou de novo com a me dele que esse negcio de fazer essas brincadeiras infantis acabou 
pra ele.
      - Katie vai gostar de saber disso, comentou Selena.
      - , tem razo! concordou Cris, bocejando. Acho melhor deix-la dormir, continuou. Durma bem!
      Em seguida, ergueu-se e entrou no banheiro, fechando silenciosamente a porta. Selena afastou um pouco as cobertas. Estava sentindo calor.
      Estrelinhas douradas! pensou. Gostei!
      E caiu no sono, tendo no rosto um leve sorriso de satisfao. Na manh seguinte, tinha a impresso de que iria continuar sorrindo animada. No se incomodou 
nem um pouco ao perceber que Tia Marta ainda estava supertensa com as pequenas preocupaes dela. Cris e Ted saram para comprar o presente para os noivos, mas ela 
no se importou de ficar em casa com a Katie. Tampouco se irritou ao ver que a amiga, que hoje experimentava mais desconforto que antes, toda hora ficava lhe pedindo 
pequenos favores. Selena sentia-se contente. Era uma felicidade que vinha l do fundo. Pensou na Trcia a manh inteira. Ficou a imaginar se ela tambm estaria sentindo-se 
imensamente feliz ou se aquela gente toda e a roda-viva dos preparativos do casamento a estavam deixando maluca.
      Selena achava que naquele dia nada poderia acabar com a alegria que estava sentindo. Tomou um banho demorado e depois entrou no quarto enrolada na toalha. 
Iria vestir a roupa maravilhosa que trouxera especificamente para a cerimnia.
      Katie achava-se de p perto da cama onde Selena colocara o conjunto.
      - Sinto muito, Selena, foi dizendo a amiga. Aconteceu um acidente.
      - Que acidente?
      - Sua saia. Ela prendeu na base da minha muleta e eu no vi. Quando sa andando, dei um puxo e ela rasgou. Me desculpe! Acho que no vai dar pra arrumar. 
Voc tem outra roupa?
      Selena correu para a saia de tecido fino e examinou-a. Sentiu uma onda de raiva e contrariedade brotar dentro dela. Primeiro Amy rasgara sua saia azul. Agora, 
acontecia isso.
      - No, respondeu com voz irritada. S trouxe esta.
      Na hora em que arrumara a mala, colocara nela vrias peas de roupa, mas eram todas informais. Nem pensara que poderia precisar de alguns trajes sociais. Estivera 
pensando apenas na outra vez em que viera a esse lugar, na Pscoa, e s usara shorts e camisetas.
      - Estou muito chateada de ter feito isso, comentou Katie.
      - Talvez d tempo de remendar, interps Selena.
      Nas semanas anteriores, todas as vezes que pensava no casamento de Douglas e Trcia, era nessa roupa que ela se "via". Tratava-se de um conjunto que refletia 
bem sua personalidade.
      - Acho que no d tempo, continuou Katie. A Cris e o Ted j foram pra igreja. Saram quando voc estava no banho. A Marta disse que quer ir cedo. Eu falei 
pra ela que voc ainda no estava pronta, ento ela foi com a Cris e o Ted. O Bob est l embaixo nos esperando.
      - Que horas so? indagou Selena.
      - Quase 6:00h.
      - O casamento  s 7:00h, prosseguiu a garota, examinando mais de perto o rasgo que havia na saia.
      Tinha de reconhecer que aquele pano era mesmo delicado e rasgava fcil. Mesmo assim, por que todas as suas roupas tinham de se estragar? Eram to poucas as 
de que gostava mesmo!
      - , eu sei, mas tenho de chegar antes porque estou encarregada de ficar com o livro de assinaturas dos convidados. Tem certeza de que no tem outra roupa 
que poderia vestir?
      - Absoluta, disse Selena.
      Nesse instante, compreendeu que seu estilo pessoal de ser e de vestir era muito importante para ela. Ficou deprimida ao ver que se sentira abalada pelo fato 
de no poder usar a roupa que era a "cara" dela.
      - Eu tambm s trouxe este, continuou Katie, apontando para o vestido verde-escuro que estava usando. Talvez Cris tenha algo que voc possa utilizar. Olhe 
na mala dela.
      - Ah, eu no posso pegar a roupa dela emprestada, no, replicou Selena.
      - No precisa se preocupar, insistiu Katie. Ela no se importa, no.
      Ela talvez no se importe, pensou a garota, mas eu no vou me sentir legal vestida com uma roupa da Cris. Voc  que no est entendendo nada, Katie, concluiu 
ela, sentindo a raiva arder em seu interior.
      Andando penosamente, Katie foi at onde estava a mala de Cris e abriu-a.
      - Olhe, disse, tem um vestido bem aqui. Experimente este. Talvez fique um pouco grande em voc, mas  melhor que nada. Eu s tenho shorts pra lhe emprestar.
      Selena deu uma olhada na pea e esforou-se para no torcer os lbios. Era de cor amarelo-clara, com estampa de flores, e trazia um lacinho no decote. timo 
para Cris, mas com certeza um modelo que Selena nunca compraria.
      - Sei no, disse ela pensativa, ainda hesitando.
      - No temos nenhuma outra opo, disse Katie, correndo as mos pelas roupas de Cris.
      Selena olhou de novo para a saia, pensando se no poderia us-la com o rasgo virado para trs ou de lado. Talvez assim ele no fosse notado.
      Por que estou sendo to renitente com relao a isso? pensou. Geralmente, no sou to ligada em roupa! Ou ser que sou?
      Lembrou-se de que sua "marca registrada" eram os objetos de uso pessoal, todos meio diferentes. Quando estivera na Inglaterra, fora conhecida pela velha bota 
de cowboy do pai. At o Paul havia notado o calado e fizera um comentrio a respeito. Ningum se referia a ela dizendo "aquela garota mais nova", mas, "a menina 
que usa aquelas roupas diferentes". Quando conhecera Amy, no primeiro dia de aula, elas haviam se aproximado uma da outra porque estavam com vestidos parecidos. 
Ambas gostavam de comprar roupas em brechs e em lojas especializadas. Selena reconhecia que a forma como se vestia era um modo de expressar uma identidade prpria.
      Ouviram uma batida leve  porta.
      - Como est indo tudo por a, senhoritas? indagou Bob do outro lado. J est na hora de irmos andando.
      Selena olhou para Katie e, em seguida, para o vestido.
      - J vamos! gritou em resposta.
      Pegou a pea e correu ao banheiro. Dois minutos depois, saiu de l com o vestido amarelo. Rendera-se, mas ainda se sentia um pouco frustrada.
      - Voc est um amor! exclamou Katie com um sorriso simptico.
      - Meu pior pesadelo  exatamente parecer que estou "um amor", replicou ela, abanando a cabea e fazendo danar o cabelo molhado. Agora vou s pegar umas jias 
e calar o sapato.
      - E seu cabelo? indagou Katie.
      - Que tem ele?
      - No vai secar e pentear, no?
      - No. Ele no fica melhor do que isso. H muito tempo que j desisti de dar um jeito nele.
      - Adoro seu cabelo, continuou Katie. Ele lhe d uma imagem de mulher de esprito livre.
      Selena foi obrigada a rir. E ela que estivera pensando que sua "marca registrada" eram suas roupas!
      - ! Sou uma mulher de esprito livre que agora est usando uma roupa meio formal. Tem algo errado neste quadro!
      Katie continuou a dizer que ela estava com tima aparncia. Durante todo o trajeto, foi repetindo que uma lio que aprendera na vida fora que nossos verdadeiros 
amigos so aqueles que nos amam de qualquer maneira. So aqueles que olham para ns procurando ver apenas como somos por dentro.
      - Voc tem razo, disse Bob, pegando um cartozinho que se achava dentro de uma agenda que estava no painel do carro. Isso lembra o meu "pensamento da semana". 
 uma frase de Agostinho. Quer ouvir? " minha alma, somente aquele que te criou pode dar-te plena satisfao. Se quiseres algo alm dele, isso te trar infelicidade, 
pois s aquele que te criou pode satisfazer-te." Isso  maravilhoso, no ?
      - Leia de novo, pediu Katie.
      Bob tirou momentaneamente os olhos da rua e fixou-os no carto. Depois, olhou para a rua novamente.
      - Espere a, interveio Katie. Talvez seja melhor voc ler, Selena.
      A garota estava sentada no banco da frente ao lado do motorista. Bob entregou-lhe o carto, e ela o leu.
      - Isso  verdade, sabe? comentou Bob assim que ela terminou. Passei quase meio sculo da minha vida procurando algo que me satisfizesse. E essa procura s 
me trouxe infelicidade. Agora, sei que somente Deus pode preencher o vazio da alma.
      Houve um momento de silncio, em que as duas jovens se puseram a meditar naquela pitada de sabedoria.
      - Chegamos! disse Bob, quebrando a atmosfera de seriedade e entrando no estacionamento da igreja.  o primeiro casamento a que assisto depois que me converti.
      Saram do carro, e ainda sorrindo, Bob acrescentou:
      - Acho que estou mais empolgado do que todo mundo aqui.
      - Sei no, retrucou Katie, indicando a fileira de carros que entravam no ptio da igreja. Creio que no est, no. Esse casamento vai ser inesquecvel!
      , pensou Selena, eu mesma sou uma que no vai se esquecer dele nunca. Vou me lembrar de que foi o casamento em que usei uma roupa emprestada, um vestido amarelo 
com um lacinho no decote. 

Captulo Dezesseis
      
      Quando Selena chegou  entrada do templo, junto com Bob e Katie, ela se deu conta de que a amiga perdera a funo de encarregada do livro de assinatura dos 
convidados. Junto  porta, havia um pequeno plpito, onde se achava o livro. Alguns convidados j se encontravam ali, fazendo uma fila, para assinar nele. Ao lado, 
estava Marta, tendo na mo uma caneta branca que entregava a cada um que se aproximava.
      - Que bom que voc chegou, Katie! exclamou ela com voz adocicada assim que os avistou. Obrigada! continuou ela para um convidado que lhe devolvera a caneta.
      Katie e Selena no entraram na fila, mas foram para onde estava a tia de Cris.
      - Tem certeza de que quer que eu fique em seu lugar? indagou Katie. Voc parece estar gostando muito de fazer esse servio!
      - No, esta tarefa  sua, replicou Marta, sorrindo para o convidado seguinte e entregando-lhe a caneta. Entretanto, se voc acha que poder ter dificuldade 
para ficar aqui em p...
      - Ah, disse Katie, acho que vou s ficar aqui de lado cumprimentando todo mundo.
      Contudo, no momento em que disse isso, ela avistou uma conhecida na fila e soltou um grito:
      - Stephanie, no sabia que voc ia vir!
      Marta fez uma expresso de desagrado com a exuberncia da jovem e abanou a cabea ligeiramente. Katie foi em direo  fila e deu um abrao na outra moa.
      Selena no sabia ao certo se deveria entrar na fila para assinar o livro de convidados ou ir procurar o Bob, que sumira no meio do povo. Decidiu levar seu 
presente at  mesa onde estavam outros embrulhos. Ali, uma tia de Trcia, que estivera no ch-de-panela, cumprimentou-a amavelmente e pegou o pacote de suas mos. 
Esperava que os noivos gostassem do bule de ch que lhes comprara. Comparado com o jogo de loua que Marta lhes dera e com o jogo de ch de prata, dado pela av 
de Trcia, o seu presente era muito simples.
      Mas  de corao, pensou. E  isso que importa.
      Selena postou-se de lado e ficou a olhar as pessoas que entravam no saguo do templo. Avistou Bob conversando com Ted e sorriu ao ver o rapaz. Ele estava muito 
elegante, com um smoking preto. Os introdutores tambm eram todos conhecidod dela, todos surfistas, mas completamente diferentes com aquela roupa formal, principalmente 
o Larry, que era o sujeito mais alto que a garota j vira. Pensou se no teria sido difcil em encontrar um smoking no nmero dele. E no havia dvida de que tambm 
ele estava muito elegante.
      Tnia e Jeremy estavam assinando o livro de presena. Marta cumprimentou a jovem dando-lhe um beijo no rosto, mas sem encostar nela. Selena aproximou-se do 
casal.
      - Oi! disse a irm para ela. Voc est toda bonita!  um vestido novo?
      Selena se controlou para no gritar.
      - No exatamente, replicou.
      Tnia nunca apreciara muito as roupas que Selena usava. Alis, s de pensar na possibilidade de ela apreciar, a garota estremecia. Se vestisse algo de que 
a irm gostava, na realidade, estaria abrindo mo de seu estilo pessoal. Teria se tornado igual a qualquer um. Isso no seria capaz de fazer. Queria continuar com 
seu jeito peculiar de ser e de vestir. Era por causa dele que ou outros a notavam.
      Selena no deu maiores explicaes acerca da roupa que estava usando, e ento Jeremy indagou:
      - Onde vamos sentar? No lado dos amigos da noiva ou do noivo?
      - J que somos amigos dos dois, qualquer lado est bom, respondeu Tnia.
      - Talvez no, insistiu o rapaz. Vamos perguntar a um dos introdutores.
      Jeremy pegou a mo de Tnia e se aproximou de Ted.
      - O que voc est fazendo aqui? indagou. O padrinho no tem de ficar ao lado do noivo, cuidando dele para que no desmaie ou algo assim?
      Ted riu.
      - Que nada! disse. Eles no esto precisando de mim l, no! Douglas est cercado de fotgrafos, pais, avs, tios, e todo mundo est cuidando dele at a hora 
em que o rgo comear a tocar.
      Ainda falando, ele deu um sorriso para Tnia e Selena, cumprimentando-as com um leve aceno de cabea.
      - Belo vestido! exclamou ele para a garota.
      Selena trancou os dentes, esforando-se para sorrir.
      -  um velho conhecido seu, no ? comentou ela.
      Ted no ouviu o que ela dissera, pois nesse momento um rapaz alto, muito bonito, de cabelo castanho e olhos cor de chocolate veio para onde eles estavam e 
deu um leve murro em Ted como quem d um cumprimento.
      - E a, colega! disse ele. Como vo as coisas?
      - Oi, cara! replicou Ted. Como vai? Ouvi dizer que voc ia se casar!
      - Eu? No! respondeu o rapaz, olhando para Selena e Tnia. Selena teve a sensao de que seu olhar era quase como um raio-X.
      - J conhece o Jeremy? disse Ted, apresentando o amigo. Ah, e aqui esto a Selena e a Tnia Jensen.
      O recm-chegado fez um aceno de cabea para Selena e em seguida estendeu a mo para a irm dela. A garota achou que ele prolongou o cumprimento um pouco mais 
do que o necessrio.
      - Este  o Rick Doyle, explicou Ted. Somos conhecidos h muito tempo.
      - A Cris est aqui, no est? indagou Rick.
      Ted acenou que sim e explicou:
      - Ela  dama de honra. Voc vai v-la.
      - Vocs dois ainda esto...? principiou Rick, inclinando a cabea e olhando para o Ted.
      O rapaz no respondeu. Ficou firme, os braos cruzados  altura do peito, esperando que o outro conclusse. Selena teve a impresso de ter visto uma expresso 
de gozao nos olhos azul-prateados de Ted.
      - Deixe pra l! disse Rick, erguendo as mos. Nem sei por que perguntei.
      - Tambm no sei! exclamou Ted.
      - , sabe no! repetiu o outro resmungando e soltando um grunhido.
      - Acho melhor a gente entrar, sugeriu Tnia.
      - Boa idia! concordou Rick.
      Ele estendeu o brao para a jovem, convidando-a a que segurasse nele para entrar no salo. Tnia virou-se para o namorado e pegou o dele. Contudo o Rick no 
pareceu ter ficado sem graa pela "esnobada" que recebeu da jovem. Por uns instantes, Selena achou que ele iria fazer a ela a mesma gentileza. Antes, porm, que 
ele tivesse tempo de fazer um movimento, Ted aproximou-se da garota.
      - Posso conduzi-la at o seu lugar? perguntou ele para ela em voz calma e firme.
      Selena pegou o brao dele e os dois foram caminhando na lateral do templo, do lado dos amigos da noiva. Ele parou mais ou menos na sexta fileira. Selena largou 
o brao dele e foi entrando no banco, logo atrs de Jeremy. Tnia estava  frente do namorado e ficou na ponta do assento.
      No corredor central, havia uma fita branca fechando a entrada dos bancos, que ia da frente ao fundo do salo. Na ponta de cada banco, havia pequenos ramalhetes 
de flores, pregados  fita. Um longo tapete branco estendia-se desde a porta da entrada at ao altar.
      Estava tudo muito bonito. Selena sentiu o corao bater mais forte naquele ambiente santo, ao ouvir a msica suave tocada ao piano. Aspirou profundamente o 
aroma das flores. Junto ao altar, foram colocadas duas enormes cestas de vime cheias de rosas, cravos e folhagens. Entre elas, havia um arco de metal todo enfeitado 
com rosas e folhagens, que se achavam entremeadas de gipses, dando ao arranjo um toque celestial. Embaixo,  frente do arco, via-se um genuflexrio,* recoberto com 
cetim branco. Certamente, os noivos iriam ajoelhar ali.
      ___________________
      *Genuflexrio, uma banqueta baixa, estreita e longa, prpria para algum se ajoelhar. (N. da T.)
      
      - Voc viu os vestidos das damas? indagou Tnia, inclinando-se  frente de Jeremy e cochichando para a irm.
      Selena abanou a cabea.
      - Nem eu, disse a irm. Como ser que eles so? Devem ser maravilhosos. Fiquei sabendo que Trcia queria motivos florais. Est lindo aqui, no est?
      A garota fez que sim. Mais convidados entravam, e eram muitos mesmo. As beiradas de todos os bancos j estavam ocupadas. As cinco primeiras fileiras achavam-se 
lotadas. Agora, os introdutores estavam conduzindo os convidados para a fileira onde Selena estava. Ela percebeu que algum se sentou ao seu lado. Virou-se para 
ver quem era. Rick. A garota deu-lhe um leve sorriso com um pequeno aceno de cabea e, em seguida, voltou a concentrar-se na frente do santurio. Involuntriamente, 
remexeu-se no banco, aproximando-se um pouco mais de Jeremy e afastando-se alguns centmetros do recm-chegado. Ela no sabia por que, mas havia algo naquele rapaz 
que a desagradava. Geralmente, ela acertava bem na avaliao do carter das pessoas, e aquele ali era um que no lhe causava boa impresso.
      A igreja continuava a encher-se de convidados. Rick inclinou-se para Selena, que sentiu, a contragosto, o forte aroma de almscar da sua loo aps barba.
      - Parece que este casamento  o evento do sculo, cochichou ele.
      Selena no sentiu vontade de responder.
      - At parece que eles so os nicos jovens do mundo que resolveram casar, continuou ele, falando ao ouvido da garota. J deve ter uns trezentos convidados 
aqui, e ainda tem mais gente chegando. Que multido! Tenho a impresso de que todo mundo veio aqui pra ver o Douglas finalmente dar seu primeiro beijo!
      Sem virar a cabea, Selena replicou friamente:
      - ; alis, um fato que vale a pena se ver. At voc veio, no veio?
      No ouviu nenhuma resposta. Um minuto depois, ele se levantou, pediu licena e foi saindo, esbarrando nos convidados que estavam no banco. Depois, desapareceu 
no saguo.
      - O que foi que voc disse pra ele? quis saber Jeremy.
      Selena deu de ombros e olhou para o rapaz com uma expresso de inocncia, como se quisesse dizer: "Nada de mais!" Jeremy sorriu.
      - Ah, no me venha com essa! disse ele.
      Jeremy inclinou a cabea e fitou-a com aquele olhar de "irmo mais velho", que Wesley por vezes lhe dirigia, e continuou:
      - No sei se devo lhe dizer isso, mas...
      Aqui, ele parou e olhou para a namorada. Ela estava observando alguns convidados que se sentavam na fileira oposta  sua. Um deles era Rick. Ao que parecia, 
ele encontrara uma jovem mais interessada em ouvi-lo.
      - Tnia me disse que eu deveria contar-lhe, mas eu no tinh muita certeza se devia ou no, prosseguiu Jeremy, olhando de novo para Selena.
      - O qu? indagou a garota.
      A expresso que viu no rosto do rapaz aguou sua curiosidade. Ele parecia preocupado e a olhava com carinho. Selena no tinha a menor idia do que ele queria 
lhe dizer.
      Nesse instante, a msica do piano cessou. Todos os olhares a se dirigiram para o altar. Uma porta lateral se abriu e o pastor entrou, posicionando-se debaixo 
do arco florido, entre o altar e genuflexrio, de frente para a congregao.
      Selena compreendeu que Jeremy no poderia lhe responder agora, mas no se importou. Nesse momento, Douglas entrou, tambm pela porta lateral, seguido dos "cavalheiros", 
seus amigos. Todos estavam de smoking. O noivo tinha uma rosa branca na lapela. Ele parou  direita do arco e se virou para a congregao, com as mos cruzadas  
frente.
      Selena nunca vira no rosto de um homem uma expresso de tanta dignidade e honra. Percebia-se claramente que Douglas estava encarando aquela cerimnia com muita 
seriedade. Compreendeu que, nesse casamento, no haveria os gestos brincalhes e os sorrisos maliciosos que vira em outros. Pela expresso do rosto do rapaz, sentia-se 
que aquele momento para ele era santo, entre ele, sua noiva e Deus.
      Um silncio reverente tomou conta do santurio.
      

Captulo Dezessete
      
      De repente, o pianista rompeu o silncio, tocando uma msica clssica, de ritmo alegre, que Selena lembrava j ter ouvido antes. Enquanto a melodia enchia 
o salo, os pais de Douglas entraram, seguidos da me e dos avs de Trcia.
      A seguir, veio uma linda garotinha loura, com uma grinalda de flores na cabea. Caminhava devagarinho, em passos lentos, um pezinho  frente do outro. Trazia 
nas mos uma pequenina cesta cheia de ptalas de rosa. Mais ou menos pela metade do corredor, ela se lembrou de sua tarefa e se ps a atirar as flores no tapete. 
Ela dava um passinho, parava, jogava algumas ptalas. Dava outro passo, parava e repetia o ato de lanar as flores no cho.
      Todo mundo estava sorrindo, cochichando uns com os outros e esticando o pescoo para ver a menina, que seguia seu caminho rumo ao altar. Assim que ela chegou 
 frente, Douglas deu-lhe uma piscadela bem disfarada, e afinal ela alcanou o ponto onde iria permanecer durante a cerimnia.
      A apareceu a primeira dama, uma prima de Trcia. Usava um vestido longo, de tecido leve, de cor lils. Ela tambm trazia na cabea uma grinalda de flores. 
Nas mos, tinha uma delicada cesta prpria para jardinagem. Nela, estava um cacho de flores, caindo de um lado. Selena achou linda a cena, que conibinava muito com 
a personalidade criativa de Trcia.
      Em seguida, veio a segunda dama, que usava o mesmo tipo de vestido e de arranjos. S que a roupa desta era rosa-plido. Por fim, surgiu a Cris, usando um vestido 
azul-claro. Seu cabelo longo estava solto sobre os ombros, ligeiramente anelado nas pontas. A grinalda que usava era um pouco maior do que as das outras duas damas. 
Sua cestinha de flores estava transbordando. Dava a impresso de haver acabado de sair de um jardim profusamente florido.
      O rosto da jovem brilhava de contentamento. Seus olhos claros pareciam danar, fitando ora as ptalas cadas no cho, ora os convidados nos bancos, e tudo 
o mais que decorava o salo. Selena ficou observando a amiga e viu quando ela dirigiu o olhar para o altar. Os olhos dela pararam em Ted, que se acha ao lado do 
noivo. Ficou a fit-lo fixamente quase que sem piscar, at chegar em seu lugar.
      Selena virou para olhar o rapaz e teve de sorrir. Ele parrecia fascinado pela figura da namorada. Estava com os olhos arregalados, a boca entreaberta. Ele 
tambm nem piscava.
      Os pais de Cris e o irmo dela achavam-se dois bancos  frente daquele em que Selena se encontrava. Junto deles, estava o Bob e, ao lado deste, Marta. A garota 
percebeu que, no momento em que sua amiga passou por eles, tanto o pai como a me dela levaram a mo ao canto dos olhos para enxugar uma lgrima de emoo.
      Guiada pela curiosidade, Selena voltou o olhar para o outro lado da igreja, no ponto onde estava o Rick. Mesmo sentado, via-se que era bem mais alto que as 
duas garotas que se achavam perto dele, uma de cada lado. Estava bem aprumado, a cabea levemente inclinada para trs, o queixo apontando para a frente, os lbios 
apertados. Tambm ele no conseguia tirar os olhos de Cris, uma sobrancelha ligeiramente mais elevada que a outra. Selena pensou que precisava perguntar a Katie 
sobre esse rapaz. Se havia algum que poderia lhe revelar algo sobre ele, esse algum era Katie.
      Assim que Cris chegou ao seu lugar, o piano parou de tocar. Imediatamente, ouviram-se os acordes do rgo. Os sons da bela e majestosa marcha nupcial encheram 
o aposento, parecendo fazer vibrar os tubos de cobre do instrumento. A me de Trcia levantou-se e virou-se para a entrada do templo. Em seguida, todos os presentes 
se ergueram tambm. Selena deu uma espiada em Douglas. O rapaz se endireitou, erguendo os ombros, e respirou fundo. A todo o seu semblante ficou como que iluminado. 
Selena compreendeu que Trcia aparecera  porta e comeara a caminhar pelo corredor central da nave. Na verdade, ela no vira isso, mas sabia que era o que estava 
acontecendo pela expresso do rosto do noivo.
      Isso  que  um homem apaixonado! pensou com um suspiro. Parece que ele vai explodir de tanta felicidade! Tenho a impresso de que os olhos dele esto cheios 
de lgrimas.
      Inesperadamente, seus olhos tambm se encheram, e por uns momentos ela no conseguia ver nada. Como  que algum poderia deixar de chorar, ao ver tal expresso 
no rosto de Douglas? Rapidamente, porm, limpou os olhos e virou-se para ver a noiva.
      Pequena e delicada, Trcia segurava firmemente o brao do pai. Caminhava com passinhos midos, mal tocando nas ptalas espalhadas pelo tapete. Estava toda 
de branco, da cabea aos ps. O corpete do vestido era recoberto de renda, de que tambm eram feitas as longas mangas. A saia ampla parecia ter sido salpicada de 
prolas. Atrs, havia uma longa cauda de cetim.
      Embora o vestido fosse maravilhoso, no era ele que chamava mais ateno. O que se destacava mais na noiva era o brilho do rosto, recoberto por um fino vu 
de renda. Na cabea, com muita elegncia, ela trazia uma grinalda de flores de cor branca. Preso nesta, estava o vu, que descia sobre suas faces como uma nuvem 
transparente. Em vez de buqu, ela segurava entre os dedos apenas uma nica rosa branca de cabo longo. Trcia era a prpria imagem da virtude e da pureza. Selena 
viuv-a como uma verdadeira obra de arte viva. Ao v-la, todos sentiam vontade de chorar.
      Afinal, a noiva aproximou-se do altar. Os convidados se sentaram com um farfalhar de sedas e cetins.
      Douglas deu um passo  frente, chegando perto da noiva e de seu pai. Num gesto simblico, este tirou a mo da filha do brao dele e a colocou na do noivo. 
A seguir, afastou-se deles e foi sentar-se junto  esposa.
      O rapaz pegou a mo de Trcia, mas no se limitou a segur-la. Puxou o brao dela para si, aproximando-a mais dele. E assim, de braos dados, os dois se adiantaram 
para o altar, postando-se debaixo do arco florido. Toda aquela cena formou um quadro belssimo, com os dois de p, diante de Deus e de todas aquelas testemunhas. 
Selena desejou, de todo o corao, que a sua cerimnia de casamento fosse to bela e sagrada quanto aquela a que assistia nessa hora.
      O pastor principiou a mensagem afirmando, em voz profunda e forte, que o casamento  uma instituio divina, e que ningum pode encar-lo de forma irresponsvel. 
Em seguida, leu um trecho da Bblia e falou sobre os misteriosos desgnios de Deus, que aproxima um homem e uma mulher para que se unam em amor.
      "A Palavra de Deus deixa bem claro", disse ele, "que o homem deve deixar pai e me e se unir  sua esposa. Ento os dois se tornam uma s carne. Assim, amados 
noivos, essa  a orientao do Senhor para vocs. Tm de deixar pai e me, unir-se um ao outro e permitir que Deus v interligando a vida de ambos."
      Com muita reverncia, ele disse a Douglas e Trcia que, para que o casamento deles durasse, eles teriam de se esforar muito e cultivar um profundo relacionamento 
com Jesus.
      "Agora", prosseguiu o ministro, tirando os olhos dos noivos e fitando os familiares e amigos deles, "quero me dirigir a vocs, convidados. Vocs precisam orar 
por esses jovens. Precisam dar-lhes palavras de incentivo e nimo. Precisam am-los muito. Tm de esperar sempre o melhor da parte deles. E nos momentos de adversidade, 
devem estar prontos para dar-lhes todo o apoio de que necessitarem. Entrego a todos a incumbncia de contribuir para que essa unio se fortalea."
      Nesse ponto, ele fez sinal aos dois para que se ajoelhassem. Douglas ajudou Trcia a abaixar-se e se apoiar no genuflexrio e, em seguida, ajoelhou-se tambm. 
Ento o ministro estendeu a mo sobre a cabea deles e orou. Pediu a bno de Deus para o casal, para o relacionamento deles e at para os filhos que eles viessem 
a ter. Silenciosamente, Selena disse "amm"  petio do pastor, que rogava as mais ricas bnos de Deus para Douglas e Trcia.
      Terminada a orao, os dois se ergueram e o ministro lhes disse para ficarem um de frente para o outro, a fim de fazerem o juramento matrimonial.
      - Eu, Douglas, recebo a ti, Trcia, como minha legtima esposa. Diante de Deus, de meus familiares e de nossos amigos aqui presentes, prometo amar-te, honrar-te 
e respeitar-te, at o dia em que Deus me levar para junto dele.
      - Eu, Trcia, recebo a ti, Douglas, como meu legtimo esposo. Diante de Deus, de meus familiares e de nossos amigos aqui presentes, prometo amar-te, honrar-te 
e respeitar-te, at o dia em que Deus me levar para junto dele.
      Ento, o pastor fez um sinal de que deveriam colocar as alianas. Ted adiantou-se e colocou a aliana de Trcia na mo do noivo. Este fitou a noiva bem nos 
olhos, ergueu a mo esquerda dela e lentamente foi colocando o anel em seu dedo anular.
      - Com esta aliana, disse ele, que  um smbolo de meu eterno amor por voc, selo meu compromisso com voc.
      A seguir, Trcia virou-se para Cris. Selena teve a impresso de que a dama de honra colocara a imensa aliana de Douglas no seu polegar. Com um gesto fcil 
e rpido, ela a removeu da mo e a colocou na da amiga. Pegando a mo esquerda do noivo, a moa introduziu a aliana no dedo dele e repetiu as mesmas palavras:
      - Com esta aliana, que  um smbolo de meu eterno amor por voc, selo meu compromisso com voc.
      Afinal, os dois se viraram, ficando de frente para o pastor. O piano comeou a tocar uma msica suave. Um rapaz se levantou com um microfone na mo e se ps 
a cantar um hino cristo, prprio para casamentos. Selena lembrou-se de j ter escutado aquela msica numa outra cerimnia. Ouvindo-a, baixou os olhos e fitou a 
sua aliancinha.
      Senhor, esta aliana j est se tornando um lembrete constante de teu eterno amor para comigo, orou ela em silncio. Neste momento, eu prometo permanecer pura 
e me guardar para aquele com quem vou me casar, aquele que o Senhor escolher para mim. Com esta aliana, selo esta promessa que te fao.
      Entrelaou os dedos, deixando as mos sobre o colo. Pela primeira vez, sentia-se feliz pelo fato de seu anel ser de ouro, e no de prata. Ele simbolizava uma 
realidade muito forte e poderosa. Selena achou bom que no fosse uma jia qualquer, uma bijuteria. Aquela aliana era um objeto muito importante, como Wesley dissera. 
Era distinto de todas as outras jias. E de certo modo, naquele momento, era assim que ela se via tambm.
      

Captulo Dezoito
      
      Afinal, o cantor encerrou o hino com uma nota aguda e sentou-se. Todos os olhares se fixaram em Douglas e Trcia. Eles haviam dado a volta em torno do arco, 
cada um do seu lado, aproximando-se do altar. 
      "Em agradecimento a Deus pela sua pureza diante de Deus e um do outro", disse o pastor, "Douglas e Trcia vo fazer uma ddiva de louvor ao Senhor. Eles agora 
vo deixar uma oferta no altar."
      Trcia colocou ali sua rosa branca de cabo longo. Douglas retirou da lapela a flor que trazia nela e tambm a depositou no altar. Nesse instante, o pastou 
abriu o genuflexrio, que formou como que um portozinho de duas folhas, e os dois noivos passaram sob o arco juntos. Pararam ao lado um do outro, fitando-se intensamente.
      "Pelos poderes que me concede o Estado da Califrnia", continuou o pastor, "e como ministro do evangelho de Cristo, nosso Salvador ressurreto, eu agora os 
declaro marido e mulher."
      Aqui ele fez uma pausa, mas em seguida deu um sorriso e prosseguiu:
      "Pode beijar a noiva!"
      Selena ficou de flego suspenso. Teve a impresso de que centenas de pessoas  sua volta tambm ficaram. Com o canto dos olhos, viu Jeremy pegar a mo de Tnia. 
Todos estavam em perfeito silncio, esperando.
      Com gestos cuidadosos, Douglas pegou a ponta do vu e a ergue, colocando-o no alto da cabea da noiva. O tecido caiu para trs parecendo uma fina cachoeira. 
De rosto descoberto, Trcia ergueu os lbios para o noivo, fitando-o diretamente nos olhos.
      Ele tambm a fitava. Os dois davam a impresso de estar completamente isolados do resto do mundo, esquecidos de que ali havia centenas de pessoas, todas quase 
que sentadas na beirada do banco e gritando interiormente: "Vamos! Beije logo!"
      Douglas segurou o rosto da noiva entre as mos e cochichou-lhe algo que somente ela ouviu. Em seguida, inclinou ligeiramente a cabea e bem devagar foi se 
aproximando do rosto dela.
      Alinal seus lbios se encontraram.
      Selena mordeu o lbio inferior e piscou vrias vezes para conter as lgrimas que ameaavam escorrer de seus olhos.
      Foi um beijo longo e demorado; um beijo calmo, cheio de ternura, e maravilhosamente romntico. Afinal, ainda bem dvagar, como se tudo estivesse acontecendo 
em cmara lenta, Douglas afastou-se de Trcia e abriu os olhos. Em seguida, deu um amplo sorriso, ao mesmo tempo em que a noiva deixava escapar uma risadinha curta.
      No meio da congregao, algum, espontaneamente, bradou:
      "Bravo!"
      Com isso, todos os amigos e familiares presentes foram se levantando, com aplausos e gritos de alegria.
      Douglas virou-se para olhar o povo com uma expresso de surpresa. Trcia tambm parecia admirada e um pouco constrangida. Logo em seguida, porm, ela comeou 
a rir e, com um gesto, mostrou ao noivo algo na galeria. Todos olharam na direo indicada. Os introdutores, amigos do noivo, estavam todos l, enfileirados. Cada 
um exibia uma placa com a "nota" do beijo: 10; 9,8; 9,9; 10 e 10. A congregao toda caiu na risada. Nesse momento, o rgo comeou a tocar bem alto, e na torre, 
os carrilhes emitiam sons alegres. Trcia passou o braa pelo do noivo e, com lgrimas de alegria a escorrer-lhes do rosto, os dois se puseram a caminhar pelo corredor 
central do templo. Todo mundo continuou batendo palmas e gritando, enquanto os recm-casados seguiam rumo  sada.
      Logo atrs deles vinham Ted e Cris, de braos dados, sorrindo um para o outro e tambm conversando em voz baixa. Eles pisavam as ptalas de rosa que, a essa 
altura, achavam-se bem esmagadas. Selena teve a impresso de que esses dois tambm estavam longe dali, esquecidos da presena dos outros. Pareciam estar flutuando 
nos ares, e no pisando terra firme.
      Os outros cavalheiros e damas os seguiram. Os introdutores desceram e se puseram a orientar a sada dos outros convidados. Foram desatando as fitas que fechavam 
os bancos, fileira por fileira, e todos iam saindo em perfeita ordem.
      O ambiente geral era altamente festivo. Selena nunca experimentara algo assim numa igreja, fosse num culto ou num casamento. Todos os presentes conversavam 
e riam alegremente, cumprimentando-se uns aos outros com abraos calorosos. Afinal, a garota tambm saiu, acompanhando Tnia e Jeremy. Os dois namorados ainda estavam 
de mos dadas e conversavam em voz baixa. Davam a impresso de que desejavam ficar a ss. Assim que Selena saiu no saguo, passou  frente de Tnia e Jeremy e foi 
se dirigindo, juntamente com os outros convidados, para o salo de recepo.
      Assim que entrou ali, viu que ele se achava belamente decorado. As mesinhas espalhadas por todo o recinto estavam cobertas com toalhas nas cores rosa, lils 
e azul, as mesmas dos vestidos das damas. De espao a espao, havia imensas cestas com samambaias. No centro do salo, via-se uma mesa comprida, no meio da qual 
estava o bolo, que tinha trs "andares". A garota notou que ele estava perfeito. Marta ficaria aliviada ao ver que ele no murchara com o calor.
      Num dos cantos, havia uma rea com um tapete branco onde se via um arco de metal tambm cheio de flores e hera. Selena entendeu que seria ali que os noivos 
iriam receber os cumprimentos. Estava ansiosa para abraar Douglas e Trcia, desejando-lhes toda a felicidade deste mundo. Contudo ainda iria demorar um pouco at 
que eles viessem para o salo. Estavam tirando retratos.
      Selena sentou-se a uma das mesas que estava vazia e pegou uma balinha de hortel, numa tigela pequena. Katie veio para perto dela e se apoiou numa das muletas.
      - Que casamento inesquecvel, hein? disse ela, empurrando as muletas para debaixo da mesa.
      Selena puxou uma cadeira para a amiga se sentar.
      - Voc viu o beijo? continuou a outra. Claro que viu! Todo mundo viu. Eu no sabia que aqueles caras iam dar a "nota" l na galeria. Que sensao, hein?
      O rosto de Katie estava to corado que quase tinha a mesma cor do cabelo dela.
      - Menina, estou cansada de andar por a com este p machucado, disse ela, sentando-se. E ainda tenho de ficar com este gesso um ms. Que tristeza!
      Em outra mesa, a poucos passos de onde elas estavam, Selena viu Rick puxando uma cadeira para uma jovem morena sentar-se.
      - Katie, quem  aquele rapaz? indagou ela.
      A amiga olhou na direo indicada e arregalou os olhos. Inclinando-se para Selena, disse:
      - No entre na dele, Selena! falou. V por mim. Fique longe desse cara!
      - No precisa se preocupar com isso, replicou a garota. Ele  que est correndo de mim.
      Em seguida, contou a Katie sobre o breve dilogo que os dois haviam mantido antes do incio da cerimnia, e como ele se levantara e sara de perto dela. A 
outra riu e, abanando a cabea, comentou:
      - Gostaria de ter sido do seu jeito uns anos atrs!
      - Voc no namorou esse rapaz, namorou? quis saber Selena.
      - No sei se posso chamar de namoro, mas ele foi o primeiro que me beijou. Voc acredita uma coisa dessas? Gente, onde ser que eu estava com a cabea?
      Selena ficou abismada.
      - Na verdade,  uma pergunta boba, prosseguiu Katie. Eu sei onde estava com a cabea. Estava pensando: "Se a Cris pode beijar esse cara, ento eu tambm posso".
      - Voc est falando srio? perguntou Selena, franzindo a testa e fitando atentamente o rosto de Katie. Voc quer dizer a Cris Miller? A nossa Cris? Ela namorou 
aquele rapaz?
      Katie fez que sim.
      - E o beijou?
      Katie chegou mais perto da garota, inclinando-se sobre a mesa e quase derramando a tigelinha de balas.
      - Selena, disse ela, tem um fato que voc no sabe sobre o Rick. Quando uma moa est com ele,  ele quem beija. Creio que a Cris nunca o beijou, isto , nunca 
tomou a iniciativa de beij-lo. Mas ele a beijou vrias vezes. Ele era louco por ela. Pra ele, Cris era algo inatingvel, que ele desejava muito conquistar. Mas 
tenho de reconhecer que morri de inveja dela. Ento, quando ela terminou com ele, e o rapaz mostrou um pouco de interesse em mim, agarrei a oportunidade com unhas 
e dentes.
      Selena ainda estava tendo dificuldade para crer que aquelas duas amigas que ela tanto admirava pudessem ter dado algo de si mesmas para um rapaz como Rick. 
Ele lhe dava a impresso de ser um tremendo "paquerador".
      - Ah, que bobagens a gente faz quando  nova, n? falou Katie recostando-se de volta na cadeira e abanando a cabea, fazendo danar seu cabelo ruivo. Se no 
fosse pela graa de Deus, seramos um bando de infelizes, no seramos?
      Selena acenou afirmativamente, num gesto lento. Estava pensando em Amy.
      - Ento, como foi que se convenceu de que no deveria "desperdiar" seus beijos com o Rick? indagou.
      - "Desperdiar" meus beijos, repetiu Katie. Gostei. No sei. Acho que nosso relacionamento simplesmente acabou. No havia nada que nos unisse. A, depois, 
me apaixonei pelo Michael. Est lembrada? Eu lhe falei sobre ele quando estvamos na Inglaterra.
      - Era aquele estudante estrangeiro que voc namorava e depois terminou porque ele no era crente?
      Katie fez que sim.
      - Esse foi difcil, viu?! Ns namoramos um bom tempo. At hoje, quando me lembro, ainda sinto tristeza. E a Cris foi uma excelente amiga pra mim nessa poca. 
Logo no incio, ela me disse que achava o nosso namoro errado, e depois ficou na dela. Deixou que eu seguisse em frente com o relacionamento, apesar de achar que 
eu estava cometendo um erro.
      - E voc acha que estava errada em namorar o Michael?
      Katie pensou um pouco e em seguida explicou:
      - , analisando o que aconteceu, tenho de reconhecer que no foi uma atitude sensata. Eu me desgastei muito emocionalmente. Sabe como , n? Eu orava bastante 
por ele e falava de Jesus pra ele. Tinha a certeza de que ele iria "enxergar" a verdade. E com isso paguei um preo muito alto, quero dizer, no corao, que  o 
mais importante.
      - Voc disse que a Cris no tentou convenc-la a no se envolver com esse rapaz. Vocs ainda no eram amigas ntimas nessa poca?
      - Muito ntimas! Mas acho que ela agiu certo. Ela me disse o que pensava e depois ficou s orando. Orou muito. Mas deixou que eu fizesse o que queria. E durante 
todo aquele perodo, continuou sendo uma boa amiga. No fim, quando tudo acabou, eu fiquei arrasada, e ela se manteve ao meu lado me dando apoio.
      Nesse momento, Katie ergueu os olhos, fitando algum que se achava atrs de Selena. Imediatamente, em seu rosto, estampou-se uma expresso de alegria.
      - Oh, que bom que voc veio! exclamou ela em voz bem alta.
      Selena virou-se. Era Antonio, um rapaz italiano que ela conhecera durante o recesso de Pscoa. Na ocasio, ele e Katie tinham ficado bem interessados um no 
outro. E, ao que parecia, a moa ainda se sentia atrada por ele.
      - Fiquei sabendo que voc agora est famosa, disse Antonio com um pesado sotaque. Saiu at no jornal. Virou artista de cinema?
      Ele adiantou-se, aproximou-se de Katie e cumprimentou-a com um beijinho em cada face.
      - Que nada! replicou a jovem, ainda com os olhos brilhando de satisfao. Estou  com o p engessado.
      - Tsk, tsk, tsk, fez o rapaz, batendo a ponta da lngua contra os dentes, numa expresso tipicamente italiana. Que pena! Eu estava pretendendo convid-la para 
irmos fazer esqui aqutico amanh.
      - Mas eu posso ir no barco e ficar segurando a bandeirinha, disse Katie.
      Antonio riu. Em seguida, virou-se para ver quem estava na mesa com Katie.
      - Selena! exclamou ele. No sabia que era voc que estava a!
      O rapaz inclinou-se rapidamente e, antes que a garota pudesse se mexer, ele deu-lhe tambm dois beijinhos, um em cada face. Na mesma hora, ela sentiu o rosto 
avermelhar-se.
      Nesse instante, houve um vozerio num canto do salo, seguido de palmas e assovios.
      Parece que os noivos chegaram, falou Antonio, estendendo um brao para cada uma. Vamos l, meninas, vamos entrar na fila dos alimentos.
      - Antonio, interps Katie, corrigindo-o e levantando-se apoiada no brao do rapaz. No  fila dos alimentos, no,  dos cumprimentos.
      - Pra voc, pode ser, replicou o rapaz. Pra mim,  dos alimentos, pois quero logo ir comer um pedao de bolo.
      

Captulo Dezenove
      
      Parada na longa fila atrs de Katie e Antonio, Selena teve muito tempo para pensar. Experimentara tantas emoes nas ltimas horas. A cerimnia, to significativa, 
to cheia de alegria, provocara nela um anseio profundo. No era apenas o desejo de ser amada por um homem como Douglas, mas tambm a conscincia de que precisava 
preparar-se para ele
      Lembrou-se do que o pastor dissera acerca dos misteriosos desgnios de Deus, que aproxima duas pessoas para se unirem em amor. E tudo isso era mesmo um mistrio 
para ela. Tinha a certeza de que a melhor medida que poderia tomar para se preparar para um relacionamento conjugal era a mesma que estava tomando agora com relao 
a namoros - orar. Tinha de orar muito e confiar em que Deus iria conduzir tudo.
      Aquilo que Katie lhe contara instantes atrs, na mesa, ajudara-a a tomar a deciso com relao a Amy. Entendera que no cabia a ela mudar a cabea nem o corao 
da amiga. S Deus consegue fazer isso.  fato que poderia expressar sua opinio para com a colega de forma clara e cristalina. Nunca tivera problema em agir assim. 
Contudo precisaria seguir o exemplo de Cris, e no interferir no relacionamento dela com os rapazes. Teria apenas de orar muito por sua melhor amiga.
      Antonio saiu da fila. Katie olhou para Selena e sorriu.
      - Ele vai buscar um copo de refrigerante pra mim, explicou ela. Esse rapaz no  mesmo um "cavalheiro"?
      -  sim, respondeu Selena. Gosto muito dele.
      - Gosta? perguntou Katie com semblante tenso.
      - No do mesmo jeito que voc, apressou-se ela a explicar, rindo da expresso da amiga. Quero dizer, ele  muito legal. Sei que ama muito a Deus, e por isso 
eu o acho...
      - Irresistvel! interveio Katie, concluindo a sentena para ela.
      As duas caram na risada. A fila ia andando bem lentamente. Selena ergueu a mo e afastou um pouco o cabelo da nuca.
      - Este seu anel  um voto de pureza? indagou Katie, olhando a aliancinha de ouro.
      - . Foi meu pai que deu, na semana passada. Tenho de admitir que assim que vi Douglas e Trcia depositando cada um a sua rosa no altar, tive vontade de comear 
uma campanha em prol da pureza por este pas a fora.
      - J tem gente fazendo, informou Katie.
      - , eu sei. Mas voc entende o que quero dizer. Acho que ase outros amigos nossos vissem mais exemplos como o de Douglas e Trcia, creio que ficariam mais 
cuidadosos na escolha do namorado ou namorada e mais firmes nessa questo de se guardar para o cnjuge.
      - , tem razo, concordou Katie. Tambm comprei uma aliana pra mim, disse ela, erguendo a mo direita e mostrando um anel simples, de prata. Meus pais no 
so crentes. Por isso, no posso esperar que meu pai me faa uma surpresa dessas. Ele nunca iria convidar-me a assumir esse tipo de compromisso e entregar-me uma 
caixinha de veludo e tudo o mais.
      Selena sentiu um n na garganta. Seu pai era crente e tivera o trabalho de criar um momento todo especial para ela com esse objetivo. Levara-a para jantar 
fora, num restaurante, e lhe dera o anel numa caixinha de veludo. E, apesar de tudo isso, naquela noite, ela s ficara pensando no constrangimento que sentia.
      Eu devia ter pregado o buquezinho no vestido, pensou. Devia ter demonstrado mais interesse e gratido.
      - Umas colegas minhas, do segundo grau, foram a uma dessas campanhas, continuou Katie. L, elas assinaram um carto de compromisso. No grupo de jovens da igreja 
delas, todo mundo passou a usar uma aliana de pureza. No sei por que, mas o nosso grupo de jovens no participou de nada disso. Ou talvez eles tenham ido e eu 
tenha ficado de fora, por algum motivo. Bom, afinal, resolvi fazer eu mesma, sozinha, o meu voto de pureza. Ento, comprei este anel e, um dia, bem cedinho, fui 
para a praia levando a Bblia. Sentei-me numa pedra, li um texto, cantei um hino e depois coloquei o anel.
      Nesse momento, Antonio voltou com o refrigerante.
      - Prontinho, disse ele, entregando um copo a Katie e outro a Selena. Estou vendo que j estamos quase chegando. Andaram bem, senhoritas.
      Trs minutos depois, chegavam  frente, onde estavam os noivos, seus familiares, as damas e os cavalheiros. Selena deu um abrao em Ted e depois um outro, 
bem mais apertado, em Douglas. O noivo ainda tinha o ar de o homem mais feliz do mundo.
      A garota beijou Trcia no rosto. A noiva estava to linda que ela sentiu que abraar s seria pouco; por isso, beijou-a. Ao que parecia, Antonio tambm pensou 
o mesmo, pois deu um beijo bem sonoro em cada face de Trcia, dizendo-lhe algo em italiano, certamente os seus votos de felicidade.
      Em seguida, Selena abraou Cris e lhe disse o quanto estava bonita.
      - Bonita s no, disse Antonio, que vinha logo atrs dela e ouviu seu comentrio. Cristina, voc est maravilhosa! Tenho certeza de que vai ser voc que vai 
colher o buqu.
      - No  "colher" o buqu que se diz, no, corrigiu-o Katie, dando-lhe um leve soco no brao.  pegar o buqu!
      - Pois , continuou o rapaz. Ela vai colher aquele molho de flores que as noivas jogam para as convidadas.
      Junto de Antonio, Katie parecia ganhar mais vitalidade. Ento, ela entrou com tudo na brincadeira dele.
      - No, Antonio. A gente no fala "molho" de flores, disse Katie, tentando imitar o sotaque italiano do rapaz. E s "buqu" mesmo.
      -  mesmo? retrucou ele, fingindo uma enorme surpresa e passando o brao sobre o ombro da moa. Mais uma vez voc comprovou que, sem sua orientao, eu ficaria 
perdido nesta terra estranha onde estou!
      - A nica terra estranha em que voc est, Antonio, disse Katie brincando,  sua prpria cabea.
      - Ah,  mesmo! disse o rapaz, dando o troco imediatamente. E voc sabe disso muito bem, porque est constantemente nela.
      - Estou onde?
      - Na minha cabea, explicou ele.
      - Na verdade, Antonio, principiou a jovem, a gente no diz "na minha cabea". A gente diz : "Voc est sempre no meu pensamento".
      Nesse momento, ela se deu conta de que o rapaz lhe dissera algo de muito romntico. Selena percebeu que estava presenciando o comeo de um namoro entre aqueles 
amigos. Agora, ela era a anica diferente. Era a mais jovem. No estava acompanhada. E usava um "belo" vestido amarelo.
      A garota sentou-se com os amigos, todos em "duplas", e ficou "digerindo" uma poro de idias.
      Uma hora depois, chegou o momento de Trcia jogar o buqu. Todas as moas foram para o ptio, a fim de participar do grande evento.
      -  um buqu que ela trouxe especialmente pra isso, explicou Katie. Na verdade, ela no entrou com ele. Entrou com uma rosa branca na mo, est lembrada? Esse 
buqu a  s pra manter a tradio.
      -  uma tradio maravilhosa, disse Tnia, postando-se ao lado de Selena.
      A garota teve a impresso de que a irm estava se colocando na melhor posio possvel, no melhor ponto para pegar as flores.
      Um fotgrafo bateu algumas fotos das moas, enquanto os rapazes todos estavam juntos de um lado, "torcendo" para elas. Obviamente, Cris era a "candidata" mais 
admirada. Trcia contou at trs e atirou o buqu para trs, bem para o alto.
      Selena ergueu os olhos e fitou o cu azul do entardecer. Naquele instante, percebeu que as flores estavam caindo em sua direo. Se desse um pulo poderia facilmente 
agarr-las. Contudo, ouviu algo l no fundo de seu ser. No foi uma voz, nem um pensamento. Foi mais que um pensamento e mais que um sentimento.
      Espere!
      Selena no saltou. Ento Tnia estendeu o brao esguio e longo e pegou-o. Imediatamente, ela exultou com a vitria. Ergueu as flores e ficou a acenar com elas 
para o lado onde estavam os rapazes. Todos eles se puseram a mexer com Jeremy dizendo-lhe que agora ele teria de comear a pensar srio em casamento.
      Nesse instante, Cris avistou Rick entre os rapazes.
      - Rick Doyle! exclamou espantada e com o rosto plido. Eu no o tinha visto aqui, cochichou para Katie.
      Selena teve vontade de dizer: "Mas ele certamente a viu", mas resolveu deixar passar. Ao que parecia, as recordaes que a amiga tinha daquele rapaz no eram 
das melhores.
      Tnia estava empolgada com seu feito. O fotgrafo bateu uma foto dela com o buqu. Selena observou que a irm posava de forma muito natural, com um sorriso 
simptico e a cabea ligeiramente inclinada no ngulo certo. Ela sabia como agir diante de uma cmera.
      - Aqui, pegue um punhado pra voc, disse-lhe uma mulher axibindo um pacote cheio de alpiste. Vamos jogar isto em vez de arroz.  orgnico.
      Selena enfiou a mo no pacote e pegou um pouco dele. Nesse momento, um Rolls Royce branco parou bem em frente da igreja. Dele, saiu um motorista uniformizado, 
com um quepe preto. Abriu a porta de trs do carro e ficou aguardando. Trcia beijou a me e o pai, pegou o brao de Douglas, e os dois alegremente se dirigiram 
para o carro.
      - Pronto! gritou a mulher que havia distribudo o alpiste para os convidados.
      Imediatamente, caiu sobre os noivos uma chuva de sementinhas, que o povo todo atirava para o ar, aos gritos. Trcia chegou  porta do carro, ergueu ligeiramente 
a barra da saia e entrou nele. Douglas pegou a cauda do vestido dela e em seguida ele prprio mergulhou para dentro do veculo. O motorista fechou a porta e foi 
ocupar seu lugar ao volante, andando calmamente, como se fizesse isso todos os dias.
      - Tchau, gente! gritou o pessoal. Divirtam-se!
      - Onde  que eles vo passar a lua-de-mel? quis saber Selena.
      - Em Maui, explicou Tnia. No sabia? Eles vo ficar na casa de Bob e Marta.
      - Selena, falou Jeremy, eu comecei a falar-lhe algo antes do casamento.
      - Ah, ! replicou a garota.
       Ela havia se esquecido disso. Jeremy olhou para Tnia e sorriu. Em seguida, pegou Selena pelo brao e os dois se afastaram um pouco dos outros. Pararam num 
espao aberto, no meio do gramado.
      -  sobre o meu irmo, principiou o rapaz. Acho que voc deveria escrever para ele.
      - Porqu?
      - Bom,  que...
      - Ele est com algum problema? Quero dizer, no est passando por alguma dificuldade, nem doente, nem algo assim, est?
      - No. O Paul est timo! Alis, est muito bem. Melhor que nunca. E sinceramente creio que voc teve muito a ver com isso.
      - Eu? Como assim?
      -  que sei que voc est orando por ele, mas no  s isso. Veja isto aqui. No sei como vou lhe explicar a situao de outro jeito.
      Jeremy enfiou a mo no bolso do palet, tirou dele um papel e desdobrou-o. Imediatamente, Selena reconheceu a letra grada de Paul.
      - Olhe aqui, continuou Jeremy, indicando um pargrafo no fim da carta. Ele est falando que tem feito muitas caminhadas no planalto escocs, onde minha av 
mora, e depois diz... ah, leia voc mesma.
      Selena pegou a carta e leu em voz alta.
      - "Voc vai at rir, mas, aqui nesta terra maravilhosa, o nico rosto que vejo nas nuvens  o de Selena. Quando eu estava em Portland, em junho, achei que 
poderia fazer-lhe um agrado e imediatamente iria tir-la do pensamento, mas no foi o que aconteceu. Veja s: ela veio junto comigo. Selena me disse que Deus colocou 
a mo dele em minha vida. Voc acha que ps mesmo? O que significa isso? O que Deus quer que eu faa da minha vida?"
      Selena ficou meio sem saber o que dizer ao ler aquilo.
      - Isso aqui  uma carta em que Paul abre o corao, Jeremy. Acho que voc no devia ter me mostrado.
      - , talvez no. Mas o que quero dizer  que ele est precisando de umas palavras de estmulo e incentivo. Acho que voc poderia dizer algo para ele nesse 
sentido.
      Novamente, Selena "sentiu" aquela mensagem interior, bem l no fundo de seu ser.
      Espere!
      Naquele momento, j no se sentiu mais inferiorizada por ser a mais nova do grupo, por ser a nica que no estava acompanhada e estar com um vestido de Cris. 
Finalmente, comeava a ter noo de sua verdadeira identidade. Lembrou-se das palavras de Agostinho que Bob citara: " minha alma, somente aquele que te criou pode 
dar-te plena satisfao".
      Com atitude reverente, a garota dobrou a folha de papel, estendeu a carta para Jeremy e, nesse momento, um raio de luz rebrilhou na sua aliana dourada.
      - O que vou dizer poder parecer muito simplista, falou ela, mas creio que Deus vai orientar Paul l onde ele est. Alis, esse tipo de pergunta, s mesmo 
o Senhor  capaz de responder.
      Jeremy olhou para a garota durante uns instantes, o rosto simptico quase sem nenhuma expresso. Afinal, disse:
      - Mas acho que o Paul iria gostar muito de receber uma carta sua.
      - , talvez, replicou Selena.
      Aqui, ela sorriu, deu um tapinha no ombro largo do rapaz e concluiu:
      - Diga a ele pra me escrever primeiro.
      Em seguida, virou-se, fazendo um rudo de farfalhar de seda com o vestido amarelo, e foi para onde estavam os outros. Sentia-se cheia de esperanas e confiana 
em Deus. Sabia exatamente quem era. E sabia tambm de quem era.
      Fossem quais fossem os misteriosos planos que Deus tinha para sua vida, um fato era certo: eles eram bem interessantes. Como Cris dissera, Deus escreve uma 
histria diferente para cada um de ns. Naquele momento, Selena pensou que a histria dela talvez no virasse um best-seller nem fosse um conto de suspense. E certamente 
no era um romance, mas que estava se tornando um grande mistrio, isso estava. Mas ela no iria morrer por isso.
      
      
Fim
      



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